Conheça o Noelismo

Em meu último post, cujo objetivo era apenas ressaltar meu ponto de vista que a causa de todos os males seria a falta de um controle demográfico, não só do grande desrespeito a capacidade de sustentabilidade instalada, da degradação ambiental de todos os tipos (não só a climática, a maior vedete dos problemas) como também o aparentemente insolúvel problema entre tecnologia e empregos. Nem cheguei a mencionar os terríveis dados que mostram que esse ano, com nossa atual população de 7 bilhões e 16 milhões, já considerando o lucro entre os que morrerão e nascerão, estaremos ganhando no final do ano uma Uganda, com seus aproximados 38 milhões de habitantes, ano que vem uma Polônia e no ano da Copa (que perigo!) uma Argentina com algo em torno de 43 milhões de habitantes, espalhados pelo mundo, principalmente nas regiões mais pobres… Tudo nesse grande e aparente esforço (o E.T. que olhar de fora dirá que nos esforçamos para isso) de chegarmos aos projetados 9 bilhões de habitantes. Não poderemos dispensar a mecanização para alimentar tanta gente e… com a mecanização (tanto digital quanto analógica) e o esforço de obtê-la teremos, além da destruição ambiental de sempre, um catastrófico desemprego, esse muito mais perigoso (porque de efeito danoso mais imediato) à civilização global em que vivemos, do que os problemas ambientais (esse é o foco central do meu ponto de vista e que, reconheço, não deixei claro naquele último post) que, completando o terrível circulo vicioso, só poderão ser vencidos com mais tecnologia, na base do vai ou racha, já rachando como está.

Mas, não foi para falar da falta de uma placa de lotação esgotada, ou daquela do ônibus terrestre que limitaria o número de passageiros sentados e em pé que o senhor Nemo Cavalcante me escreveu (ao invés de normalmente interagir nos comentário do blog).

Estava doido para falar que uma simples moratória de 10 anos sem nascimentos, quando diminuiríamos a população planetária em 600 milhões de habitantes, indicando esperançosamente (ironia) que temos salvação… Não, o que chamou à atenção do Sr. Nemo foi o meu comentário inicial naquele post, de que nada poderia ser resolvido em termos globais por uma população onde 40% acreditam que tudo que acontece é por vontade de deuses diversos, 40% que dizem acreditar nesses deuses (mas ainda ponderam diante a razão de forma meio que inconsciente ou cínica), 10% de agnósticos que ficam em cima do muro como se isso fosse possível diante as evidências da ciência, da filosofia e da lógica e 10% de pessoas absolutamente céticas que, com seu único olho racionalista, tentam desesperadamente serem reis na terra dos cegos, descobrindo no final que o máximo que conseguem ser – diante os mitos que sustentam as esperanças da maioria humana – seria serem apenas zarolhas que cuidam do seu próprio umbigo, tendo que viver a maior parte do tempo com o olho fechado para que este não seja vazado pelos totalmente cegos, até mesmo na base do tato… com dedos perfurantes e infectados de besteiras.

O Sr. Nemo afirma que está entre os 10% de zarolhas, mas que aderiu ao noelismo, o que pode ser o culto dos ateus, depois da própria “não crença”, quando esta entra na fase proselitista raivosa. Não entendendo nada, resolvi montar com o meu leitor uma entrevista que hora reproduzo abaixo.

__ O tal Noelismo que o senhor chama de culto, tem a ver com o personagem bíblico Noé e sua arca? Alguma alusão a busca de salvação da vida enfiando todo mundo em uma arca a ser construída em alhures (teve aquele filme de poucos anos atrás… onde a arca era construída nas cordilheiras do Himalaia…). Pergunto isso porque o tema o qual tratava possui características apocalípticas. – perguntei na sequência de e-mails que condenso nesse único texto.

__ Não Sr. João Canali, o Noelismo se refere a primeira criatura mística que grande parte das pessoas do mundo ocidental, de um pouco mais de uma século para cá acredita, e depois renega como mentira e, invariavelmente, substitui por outros mitos místicos ou deuses diversos.

__ Então isso é um deboche de ateus… O senhor está se referindo a Papai Noel? (Essa é a vantagem da comunicação via email ou através de caixas de texto de um blog, por exemplo… se tem todo o tempo para pensar… Não mataria a charada em uma conversa regular, ou demoraria, deixaria passar…

__ Absolutamente sim, mas não é só um escárnio. Trata-se de resgatar a verdade para dentro do que parece ser uma necessidade humana, o que de uma maneira ou outra é inculcado nas pessoas através das culturas. “Verdade” porque é cultuar uma figura que assumidamente não existe ou nunca existiu, é percorrer o caminho inverso das religiões tradicionais e obter algumas experiências não nocivas trazida pelo culto e pelos rituais. Trata-se também de construir o mito e assim melhor entender a mecânica religiosa de forma divertida e instrutiva. Um exercício para a mente. Cada vez mais temos ateus que não tiveram contato nenhum com as religiões, seja por serem filhos de ateus ou agnósticos, um contingente cada vez mais assumido devido aos avanços culturais modernos , seja por não terem sido educados com o elemento religioso… enfim, esses ateus que não desenvolveram o pensamento cético por conta própria, podem se tornar vítimas fáceis da mentira organizada que embasa o nosso mundo… Não do conteúdo religioso que é pueril, mas do formato, da coisa de pertencer, de ter uma identidade com aceitação social, de seguir preceitos, ter uma disciplina… Coisa que para a maioria dos ateus é uma besteira, mas que para outros tantos não… parecem necessitar seguir um pensamento filosófico qualquer, terem um norte pré-fabricado, sempre acaba sendo… O ateu dificilmente se congrega com outros porque ele não sabe quais seriam os valores de freio do outro ateu. A maioria dos não ateus absorve valores de certo e errado em uma feijoada mística dada pela sociedade, eles acreditam em vida após a morte onde de alguma forma serão castigados ou premiados em função de suas atitudes. Ninguém acha firme a disposição do ateu em ver dignidade no que funciona para os relacionamentos entre as pessoas, isso soa falso até para outros ateus. O culto a Papai Noel dá uma resposta a isso tudo.

__ Me desculpe seu Nemo, eu acho que falta muita coisa em um simples culto a uma figura assumidamente inexistente para se poder ter uma consistência próxima a experiência religiosa, do que eu suponho que ela seja através da observação, já que não participo disso, vejo a coisa religiosa da própria cultura que participo como um cientista, um antropólogo vê as crenças primitivas de uma tribo de índios. Pelo menos tento, ou melhor, se não é assim estou me enganando, admitiria humildemente. Seria preciso uma cosmogonia, uma explicação de mundo qualquer, promessas de vida após a morte, milagres… Como vocês resolvem isso.

__ Já entendi o que você quer… Mas no noelismo cada pessoa inventa uma explicação de mundo qualquer… Afinal trata-se de um culto de livre-pensadores, inventamos o que seguiremos dentro dos parâmetros que adotamos… ou seja, no popular, tem que ter Papai Noel no meio, esse é o talismã, a nossa âncora na realidade, a nossa bússola, o nosso acento ejetável, nosso salva-vidas… Eu tenho uma cosmogonia para explicar os poderes de Papai Noel.  Os deuses, os semi-deuses, os “santos” ganhariam consistência através do inconsciente coletivo, seriam seres formados por uma rede sem fio de neurônios presentes nas pessoas. Papai Noel é o ser mais poderoso porque a crença das crianças é muito mais forte do que a dos adultos… a criança não tem barreiras cognitivas, acreditam de verdade, o adulto, por mais ignorante que seja sempre acaba tendo um pé atrás, se da conta que deve ter alguma coisa errada com seu deus por permitir tanta injustiça e sofrimento… Como há a promessa da vida além da morte ele acaba aceitando a patuscada, promove uma anulação de sua racionalidade. O adulto na maior parte das vezes não encontra substitutos para a  esperança ou significado de uma vida que ele sabe que é finita… Prefere até imaginar que a vida dele é uma espécie de provação do que aceitar o fato de que não existe deus algum e que a morte é como dormir, não sonhar e não acordar mais.

__ Então se o senhor me falar do noelismo vai apenas falar do que o senhor imagina, outro ateu imaginaria outra coisa qualquer? Não fica difícil propagar esse culto?

__ Em síntese seria isso sim, mas nada me impediria de escrever um livro com uma coletânea de filosofias de para-choque de caminhão e atribuir esses “ensinamentos”  a Papai Noel e outro ateu adotar isso de forma inofensiva, já que sabe que é apenas mais um caminho de Papai Noel, presentes psicológicos que saem daquele saco que o bom velhinho carrega nas costas. Aliás deixe-me alerta-lo que o noelismo também dá vazão as superstições humanas, mas há diferenças sutis. Na minha construção Papai Noel segue fielmente o seu propósito que é dar presentes, ele adota a lógica que é dando que não se perde (perceba a diferença no emprego do verbo final), no caso a nossa crença nele, o que ele precisa para existir, enquanto uma imaginação coletiva e abstrata. Portanto, não se pode pedir milagres a Papai Noel, ou melhor, não se pode pedir nada a Papai Noel, a postura correta é estar atento para reconhecer os presentes que Papai Noel nos dará ao longo da vida. Ele escolhe o presente que nos dá porque quis, porque achou necessário, lhe deu vontade, seguiu sua função, não porque merecemos ou fizemos isso ou aquilo. Não existe a tradicional chantagem do relacionamento dos deuses descritos nas religiões regulares. Como um deus poderia ter preferidos entre idiotas que obedecem uma bula qualquer em troca de milagres e ingressos para o paraíso descrito em algum panfleto turístico dado como sagrado? Como o senhor pode deduzir o culto a Papai Noel permite uma critica profunda das relações religiosas, coisa que um ateu precisa esmiuçar de forma corajosa.

__ Eu não duvido que haja ateus nominais (apenas no nome) que acreditem que se “deus” (do monoteísmo judaico-cristão ou o dos muçulmanos) não aparece ou gostaria de brincar de esconde-esconde é porque deseja que não acreditemos em deuses… Então ele seria ateu para atender essa vontade… esperando, claro, no fundinho hipócrita, alguma recompensa qualquer… porque é difícil, suponho, o ser humano não se libertar dessa negociação mágica…

__ Muito engraçado Sr. Canali, eu também acredito que haja “desateus”, o nome correto para esse caso, chutaria. Mas, voltando a Papai Noel ele é mágico e os pais cometem um grande engano ao ameaçarem seus filhos com ausência de presentes em função do mau comportamento das crianças, esse é um dos problemas que enfrentamos com o noelismo. A crença em Papai Noel deveria ser estendida o mais tempo que fosse possível. Os pais teístas tem muita pressa em trocar um deus que só dá sem pedir nada em troca por outro, Papai do Céu, cheio de condicionantes e imposições, isso é arrasar com a infância.

__ Eu acho que o Bicho Papão faz a ponte… nessa transição… No fundo são os país de antigamente ou os ainda ignorantes querendo controlar as crianças sem se dar conta que eles também foram vítimas dessas fantasias todas. O problema de imposição de valores de conduta na cabeça dos jovens é de fato um problema, qualquer sociedade terá um código a ser obedecido que esbarrará com a formação incompleta das crianças, sua falta de experiência, aqueles hormônios todos… Realmente estender a crença em Papai Noel até que a própria criança se de conta que aquilo não pode ser verdade não é solução, é acostumar as crianças a ter crenças inverossímeis, amigos invisíveis, esquizofrenias de graus variados… a criança acostumada aceitará de bom grado substituir a sua perda por outra ficção mística qualquer.

__ O senhor está sendo pessimista… A crença em Papai Noel é ultra-recente em termos históricos, coisa que só assumiu o formato atual em pleno século vinte, antes era uma lenda mística bastante regional e, nesse período, coincidentemente ou não, os ateus tem aumentado de forma significativa. Quando a criança aprende que Papai Noel não existe, passa a ter o assento ejetável, aprende que pode estar sendo enganada mais uma vez em relação a deuses maiores, todos eles cheios de regras e preceitos elaborados. Mas acredito que já satisfiz a minha vontade de passar o culto à Papai Noel em frente.

__ O senhor não explicou o que a sua construção do noelismo diz a respeito da vida após a morte, que segundo venho repetindo a anos é o grande ticket das religiões.

__ Quando morremos não nos tornamos nem fantasmas, espíritos, anjos ou demônios, nos transformamos em anões e vamos trabalhar na fabrica de presentes de Papai Noel no Pólo Norte.

__ Eu não gostei dessa história de trabalhar de graça para Papai Noel, mesmo contando com a possibilidade de ter por lá uma anãzinha jeitosa para me aquecer do frio do Pólo Norte… Mas, admito que ainda é melhor do que me transformar em uma das renas da carruagem alada de Papai Noel , aquela galhada deve incomodar pacas. 😉

 

 

Anúncios

Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
Esse post foi publicado em Ateísmo, Crônica, Cultura Popular, Ideias. Bookmark o link permanente.

8 respostas para Conheça o Noelismo

  1. Barbie disse:

    awesome post…thanks for posting.http://www.elisabags.com

  2. Elisa disse:

    good stuff. needs to be looked into more.http://www.letraemusica.net

  3. Aldrovanda disse:

    i would like to read your newer posts, so i will bookmark you. hope to see your updates.http://www.agrotama.net

  4. Cíntia disse:

    we can notice you’re such a hard worker, good step for fame.http://www.kaneson.com

  5. Max Dias disse:

    Muito pitoresco, caros blogueiros. Mesmo que de gozação, aderir a cultos é uma tremenda roubada hoje em dia. Religião e ideologia são assuntos encerrados – o Corinthians, os Rollig Stones são muito mais importantes. O nome da coisa hoje é “interesse”. Por falar em Papai Noel, é bom lembrar que essa figura burlesca é uma criação da agencia de publicidade da Coca-Cola, lá pelos idos de 1930. Polo Norte, anões, duendes, renas, trenós, roupinha vermelha, touca, saco de presente, chaminés e &C é tudo muito recente demais para se ter alguma perspectiva. Esta vem de São Nicolau, um bispo turco que nas noites de frio, lá nos idos do século IV, saía para ajudar os necessitados, com enfase nas meninas da “vida fácil” (não sei porque chamam de “fácil”!). Ele as aquecia e as ajeitava em alguma acomodação numa estalagem, ficando a noite toda a cuidar das pobrezinhas. Bem, a coisa era tão escandalosa que a Igreja tratou de enfeitar a história com presentes na noite de natal, não só para as criancinhas femininas como as masculinas. Hoje, com os fatos pedofilicos vazando dos esgotos vaticanais, essa versão piorou a coisa… Mas a verdade é que a versão fez os comerciantes judeus dansarem de alegria e o Natal é um leviatã comercial, abrindo caminho para o dia das mães, dos pais e tanta coisa mais. Não há dúvida que hoje a Igreja não fatura um décimo do que seus antepassados judeus conseguem com as tradições cristãs. Entre elas, a confissão, cuja versão judaica psicanalista é milhares de dolares mais eficiente…

    • João Canali disse:

      A imagem moderna de Papai Noel, um velho barbudo e barrigudo (aliás não fosse a barriga, ficando só com a vasta cabeleira e a barba poderia compor o ícone do Papai de maior patente, o do “céu”) foi desenhada em 1881 e vem sendo atualizada. Mas, creio que a origem da coisa, onde se flagra a mentira, não vem muito ao caso, como também não vem ao caso a origem das outras religiões e cultos (historietas grosseiras a luz da razão hodierna), pegando aqui o espírito da coisa, o importante é o totem, o que se faz dele.

      Mas, essa semana temos uma bela ilustração de como anda as religiões no Brasil. Um sujeito ligado a Igreja, comprou uma pomba branca já criada pelo estabelecimento comercial para ser lançada de forma comemorativa ou para ficar no fundo da cartola de um mágico e não voar para longe, e a lançou sobre o caixão do Eugênio Sales, o ex-arcebispo do Rio de Janeiro, em meio ao cerimonial de seu enterro. A pomba ficou lá meio que macambúzia em cima do caixão (era criada em uma gaiola fechada, nunca havia voado) e o JN a mostrou a todo o Brasil com a vontade enrustida (a velha ligação dos Marinhos com a Igreja e em especial com aquele bispo/cardeal, sei lá) de ter filmado um milagre, a pomba do “Espirito Santo”… Pensei que haveria uma repercussão qualquer entre os cristãos, que iam explorar a coisa… Já estava pronto para propor chamarem o Padre Quevedo para desvendar mais um falso milagre… Essa ia ser boa… Mas, estranhei não explorarem mais a situação, nada na rede, nenhum bochicho… Essa coisa de evangelismo cresceu absurdamente, o que continua salvando (o que sempre salvou por aqui nos EUA…) é que eles não fundaram ainda uma central ou um sindicato de bispos, pura concorrência comercial creio, e isso deve ter amortecido a repercussão do milagre da pomba, assim como a moderna má fama da IRC seus padres taradões… pensei com meus botões… Mas, pode ser que os 40% que ardorosamente dizem acreditar em “alguma coisa” já estão meio que cansados de levar porrada da ciência e da razão mais pueril e ficaram na deles… Enfim, mais inacreditável foi ver o Fantástico fazer seu dever de casa e esclarecer o que tinha ocorrido… tentando ainda deixar uma margem para dúvidas de ignorantes… mas mostrando os fatos… A pomba macambúzia simboliza agora que está havendo um maior respeito com a manipulação do sangue de São Genaro, que a melhor parte do mercado agora está nas mãos dos pentecostais protestantes sacolais, que as coisa estão mudando, lentamente, mas mudando… Acho que a transição vai ser como uma picada de agulha da vacina… Só haverá salvação se o pessoal desistir das velhas “salvações”.

  6. Max Dias disse:

    É verdade, Canali, vc deve ter pesquisado. Mas antes da Coca-Cola fazer toda a produção, o casting, o cenário do bom velhinho, chamavam-no de Santa Klaus, lá na Alemanha. E era um velhinho magrela e de barba rala – parecia saido de um conto de Dickens. Em São Paulo, na minha infancia, existia a Casa São Nicolau, de origem alemã, com presentes para as criancinhas e adultos também. Mas a coisa não chegava nem no rodapé do que é hoje, comercialmente.
    Porque não estudar a história das religiões? – acho um assunto fascinante. É a história do poder, das comunidades, da ética barata, uma “organização das superstições e dos medos” geralmente muito esperta ou mesmo genial. O que é o monoteísmo, proposto por Zoroastro, com seu “Ahura Mazda”, senão a sacramentação do totalitarismo lá na Antiga Pérsia?
    Os gregos, apesar da rigidez social, nunca foram monoteístas – eis o germen da democracia. Aliás, essa história do pombo que fecundou Maria para gerar Cristo vem diretamente da mitologia grega, semelhante às de Jupiter criando seus heróis semihumanos / semideuses, Hercules, Teseu, &C, transformando-se em cisne, em touro e até em chuva. Daí a tranquilidade com que a história do pombo foi aceita – aliás “Cristo” é o nome grego do Nazareno.
    O que aconteceu de mais importante na religião nos ultimos 500 anos? Eu acho que a passagem da Idade Média para o Iluminismo mudou a maneira como os individuos se relacionavam com Deus (que não acredito que exista), pois durante os séculos anteriores ao XIV, os frades e congeneres eram sustentados pela comunidade apenas para tratarem dos assuntos com Deus, como intermediários, sem a participação ativa da população. Só fim da Idade Média a religião começou a se tornar assunto de carater pessoal. A propria Igreja só começou a sacramentar casamentos por esse período – essa história do que “Deus uniu o homem não separa” e bem mais recente do que se pensa.
    O que está por trás disso tudo ? A globalização crescente, a descoberta e a ocupação do planeta, de seu lugar no universo e o surgimento de Isaac Newton. Na filosofia (ainda muito teologia), o que temos antes? Um pequeno texto de Pico della Mirandola, em fins do século XV, sobre “A Dignidade Humana”, que contém praticamente tudo que veio ao longo dos séculos, até Kant e Sartre. Esse genio florentino foi perseguido pela Igreja, é claro, mas anteviu o mundo de hoje. Claro que me refiro à evolução do pensamento ocidental, básicamente europeu. O mundo islâmico ainda está no século XVI, e o ásiatico acha graça em religião (melhor não falar da India…)

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s