Miami menos 20, o que deixou de ser dito há duas décadas

“O que pensar sobre o futuro de uma espécie onde 40% dos indivíduos acreditam que tudo que acontece é pela vontade de deuses ou que tudo será resolvido em outras vidas no além, onde outros 40% fingem ardorosamente concordar com os primeiros, onde 10% estão indecisos e 10%, que se salvaram do conto do vigário, chegam rapidamente a conclusão que é melhor tratar do presente, na única experiência de vida que possuem?”

O que vou falar já é sabido, mas se mentiras repetidas muitas vezes se tornam verdades, estas quando repetidas devem surtir algum efeito diferente do que a indiferença, vale a tentativa.

Todos os grandes sistemas sócio-econômicos hoje existentes ou, mesmo já inventados, não conseguem garantir empregos produtivos para todos, logo todos eles são insatisfatórios, pois em algum momento os desempregados ou desocupados não sustentados promoverão ou serão motivo e/ou pretexto de guerras internas ou externas, para a conquista dos mesmos empregos e ocupações. Esta pode parecer uma afirmação exagerada, mas, se trocarmos os nomes na história sempre encontraremos, tanto nas análises do materialismo histórico quanto da antropologia de ponta, passando pelo evolucionismo darwinista, freudiano ou não, que as tensões econômicas é que levam a necessidade do expansionismo ou a pretensão de um crescimento sem fim: guerras, decadência, declínio e aniquilamento de determinada civilização.

O problema demográfico não é só um problema de depleção da natureza, é um problema de inviabilização de sistemas sócio-econômicos. Nenhum desses sistemas dará certo ou será plenamente justo e funcional (feliz) se a mão de obra disponível não for na exata medida necessária a atender as demandas de um determinado número populacional ideal em uma relação de contingente e espaço a ser ocupado. A falta de mão de obra nem de longe é uma ameaça tão grande quanto o excesso de mão de obra, mas, o ideal é não faltar nem sobrar.

Povos nômades da África e da Ásia, ameríndios da selva amazônica, assim como povos primitivos da polinésia, apresentam ou apresentavam (melhor dizendo) uma estabilidade existencial em suas sociedades. Não se trata apenas do modelo extrativista, restrito a determinados ambientes naturais. O perfil demográfico dessas sociedades sempre foi espontaneamente baixo, devido a grande mortalidade nos nascimentos, a baixa expectativa média de vida em função de hábitos primitivos e o hábito de cindir os agrupamentos, na presença do esgotamento dos recursos a serem coletados no perímetro do agrupamento. Obviamente que não é o que queremos, muito menos sendo uma opção forçada, como se desenha em um horizonte pessimista porquanto possível diante a catástrofe.

A agricultura organizada, a segunda maior aquisição tecnológica após a estrutura lingüística, possibilitou o surgimento das grandes civilizações e centros urbanos. Com as cidades, o homem passou a acumular mais conhecimento e a transmiti-los de forma mais eficiente para as sucessivas gerações, logo o conhecimento se transformou em industrialização, que se tornou imperativo para um quadro onde as populações sempre aumentavam.

Guerras, costumes que tornavam o sexo proibitivo em para crenças primitivas, grandes epidemias, assim como diversas formas de  absolutismo impediram a visualização do óbvio problema, até porque não havia métodos efetivos de controle demográfico, a lotação demorou a ser atingida.

No final do século XIX o homem descobre a existência de uma vida invisível que lhe matava, talvez o último regulador demográfico espontâneo ou natural… Quantos milhões de pessoas não deixaram de morrer e continuaram procriando pelo simples fato de parteiras, médicos e tira-dentes passarem a esterilizar suas mãos com álcool, além da difusão de outros hábitos higiênicos?

Muitos, sempre embebidos em mitos sociais, se esquecem dos bilhões de pessoas que Pasteur pariu e Fleming depois cuidou, o resto é conseqüência.

Curiosamente, na sequência da descoberta de Pasteur eclodiram duas grandes guerras mundiais, onde morreram ou deixaram de nascer muito mais pessoas do que foram contadas. Se os micróbios encontraram a penicilina, os homens encontraram a bomba atômica, pura e sinistra coincidência…

Mas, a ameaça nuclear não abrandou o uso de métodos convencionais de controle demográfico, nem poderia. Outros formatos de extermínio, agora baseados em tolas disputas ideológicas de sistemas fadados ao insucesso (sempre lembrando da inviabilidade social de qualquer sistema que não controla sua expansão demográfica, do cachorro que corre atrás do próprio rabo, com gráficos de crescimento que sempre levam fatalmente ao desemprego e os atritos decorrentes…) se globalizaram onde era possível ou mais fácil de acontecer.

Nova coincidência, como que para alimentar a cabeça fraca dos místicos, acontece de forma salvadora. Quando estávamos prestes a usar o “grande inseticida nuclear” em uma Terceira Guerra Mundial… é descoberta a pílula anticoncepcional e na sua sequência, a liberação da mulher, a popularização de métodos abortivos, a epidemia da AIDs que se tornou um grande biombo para uma forma oculta de contenção demográfica, não só pelas mortes que causou, como também pelos que deixaram de nascer em função do uso de preservativos e, agora, por último, a aceitação cultural do homossexualismo.

Obviamente que nada disso foi planejado, da mesma forma como também não o foi todos os avanços da medicina moderna que contrabalançaram a questão, impedindo mortes prematuras de tal forma que em apenas um século a maior parte dos países saíram de uma expectativa de vida de 40 anos para mais de setenta, para não falarmos nos diversos métodos de fertilização e até mesmo do folclórico Viagra e drogas similares.

O grande problema, no entanto, é a cortina de fumaça com que todos esses fenômenos deixam de ser discutidos. Foi montada uma máquina lá atrás que depende do crescimento contínuo e mesmo desenfreado do consumo para sobreviver. Ela tem vida própria. Países culturalmente mais avançados (curiosamente, para farta análise de antropólogos, onde o sexo deixou de ser um tabu e onde poderia se esperar um aumento de nascimentos, ocorreu o inverso…) conseguiram o ideal do declínio demográfico, mas, foram obrigados a permitirem a entrada de excedentes humanos (desempregados) de outras regiões não evoluídas de forma consentânea, para poderem satisfazer a máquina que não poderia mais parar, afinal, todas as estruturas sócio-econômicas se alastraram por todo o planeta na insana busca do crescimento sem fim através do comércio e jogatinas financeiras…

A sustentabilidade, que ainda buscam é a dos empregos dos países mais poderosos ou adiantados, que não assumem que talvez fosse melhor criar uma “bolsa planetária” que mantivesse o homem desempregado em seus países condicionando a ajuda a implantação  de um controle demográfico flexível, onde metas de nascimento fossem alcançadas.

Paralelamente, a todo esse fenômeno temos o fato mais paradoxal de todos. Não existirá salvação em troco do abandono da conquista do saber e da tecnologia, definitivamente, o saber não tem volta. Se a tecnologia é a grande ameaça, sem ela não haverá salvação.

O homem só poderá substituir os deuses e a vida eterna do além imaginário que obviamente nada resolverão para impedir o fim do mundo, quando tiver nas mãos o controle do envelhecimento. Enquanto houver desenvolvimento científico a meta será sempre essa, custe o preço que custar, a humanidade, mesmo sem saber é “alquimista”, mesmo que isso soe ridículo ou exagerado. Se uma solução demográfica não for encontrada por mortais, nunca se poderá chegar a imortalidade concreta, a humanidade nunca vencerá seu grande desafio, não adiantou ter consciência da existência da morte. O pensamento não foi uma evolução, foi apenas uma infeliz mutação que proporciona o sofrimento do portador, por não lhe dar sentido algum, apenas um tempo inconsequente e fugaz.

Mas, para entender o paradoxo que a tecnologia trás não é preciso concordar com os  ensaios filosófico de quem escreve esse texto e resumidamente o expressou no parágrafo acima. É fácil entender que a tecnologia é uma “ceifadora” de empregos. Milhões de empregos foram ceifados em todo o planeta pela automação que se implantou em todas as áreas. Talvez isso não tenha sido tão forte nos países onde os computadores foram fabricados ou nos países que não tiveram estrutura para tê-los de início… Mas agora, obviamente, a automatização e a robotização de praticamente todas as indústrias é um fato consumado e irreversível. As tecnologias que mais lucros e benefícios proporcionam são aquelas que, invariavelmente, trazem o desemprego. A velha e poluidora indústria está sendo ainda aceita para manter empregos… Bobagem estarem atacando os meios de destruição da natureza enquanto a verdadeira causa de é deixada de lado.

Simbolicamente, essa velha indústria, que tantos malefícios trás a natureza e sorrateiramente luta contra alternativas energéticas ou tenta retardá-las ao ritmo de sua sobrevivência e conveniências, está agindo como dentistas conservadores que, por interesse consciente ou não, rejeitam os implantes dentários em função da perda futura de serviços… Daí tais implantes não caírem de preço com a velocidade que era de se esperar ou já terem se tornado um tratamento padrão, para alívio de protéticos também. Esse prosaico exemplo do dentista que chamo de conservador expressa o problema de se implantar soluções que prolonguem a agonia… Que é o que agora a humanidade está fazendo, ao não reconhecer com todas as letras que é necessário baixar a tripulação terrestre de 7 para 2 bilhões de pessoas, ao invés de querer estar imaginando métodos de dar sustentabilidade ao insustentável.

Mas, indubitavelmente, será da tecnologia que poderá surgir mais uma salvação para a questão demográfica: a pílula do homem, que venceria diversas barreiras culturais e psicológicas que a vasectomia não é capaz de vencer. A falta de investimento em pesquisa nessa pílula ou uma busca mundial por ela faz parte dessa cortina de fumaça que impede que as pessoas aceitem encarar o fato demográfico de frente, assim como a China o fez de forma tardia é verdade, mas que salvou nosso planeta de assistir a mais uma carnificina até o presente momento. Sim, a China que se recusa a participar de cúpulas internacionais que visam a formulação de políticas de preservação ambiental em escala mundial foi o único país onde implantou ou pôs em prática, o único remédio possível… outro curioso paradoxo.

Contudo, o verdadeiro drama começa justamente quando for de aceitação geral que para resolver o problema social e ambiental, a nossa mais elementar liberdade, a de procriarmos, está em risco, como esteve e está na China, onde uma revolução cultural foi tentada para que se pudesse impor um controle de natalidade.

O que seria necessário para que o mundo iniciasse uma revolução cultural onde as pessoas aceitassem ter filhos, caso houvesse vaga na região? Que a imigração fosse orientada em função dos postos de trabalho a serem preenchidos, significando em um primeiro momento uma total proibição das imigrações externas e internas, que ocasionaria o estrangulamento do crescimento contínuo de produção e consumo ora posto em prática? Conviveríamos com essa falta de liberdade e o retardo de aposentadorias? Ou seria mais fácil imaginar uma esterilização em massa, quando a novas descobertas permitissem uma vacinação anticoncepcional? Como acabar com os tabus de origem mística que impedem a prática voluntária do aborto ou o ideal de famílias com muitos filhos? Como operar todas as grande transformações necessárias dentro de um clima de liberdade política e aceitação das tantas crenças místicas que servem de muletas para o conhecimento da morte?

Claro que é possível, seja pelos métodos autoritários da China ou aqueles surgidos na evolução cognitiva refletida em modelos culturais, como ocorreu espontaneamente em alguns países europeus (nos esquecendo aqui que a China não conseguiu a redução populacional e que os europeus importaram mão de obra).

O importante é que isso seja debatido com todas as letras, sem subterfúgios e pisando em ovos pois sem quebrá-los o omelete não será feito.

 

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
Esse post foi publicado em Ateísmo, Comentários Políticos, Crônica, Cultura Popular, Divulgação Científica e Tecnológica, Economia, Ideias, Ideologia, Política Internacional. Bookmark o link permanente.

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