Inteligência: 60% Sorte 40% Acaso

Nesse artigo da Folha cientistas chegam a conclusão que a inteligência humana é fruto de 60% de aspectos circunstanciais e 40% genéticos.

Eu afirmaria, sem muito medo de errar, que a capacidade de aprender (processar e armazenar de forma eficiente, com acesso rápido) é genética, é o hardware. O software, os 60% restantes, é circunstancial… e aí é que mora as possíveis injustiças/justiças sociais, a igualdade de oportunidades e acesso a boa educação formal e familiar. Quer dizer, a nossa inteligência está sujeita a duas hereditariedades acidentais (as quais não temos o menor controle, já que até chegar a fase adulta, uma pessoa tem muito pouca condição de interferir na qualidade de  sua educação doméstica).

Dizem que a nomenclatura nos países que experimentaram o que se convencionou chamar de socialismo real se formava de forma espontânea, os filhos dos médicos, professores, engenheiros, cientistas em geral, mesmo tendo sistema educacional formalmente igual (isso deve ter sido falcatruado ao longo do tempo…) aos filhos dos operários e trabalhadores braçais, tinham desempenho muito melhor e tendiam a ocupar as posições sociais de destaque. Seu posto na nomenclatura era garantido pela vantagem de uma educação doméstica de melhor qualidade que adquiria até mesmo por osmose ambiental, mesmo que não houvesse um nepotismo nomenclatural (claro que também ocorria), digamos assim. A única alternativa para que isso não ocorresse (numa tentativa radical de dar um ponto de partida igual a todos, acabando ou diminuindo a acidentalidade que incide nos 60% circunstanciais da inteligência) era separar os filhos de seus pais e criá-los em colégios internos (inviável né?)…

Já os nazistas pensavam o inverso, em garantir a qualidade genética responsável pelos 40% de inteligência… Será que não encontramos nessa balança de extremos opostos de tentativas (em meio as cobiças de poder, evidentemente…) a razão profunda e científica desse antagonismo de extremos ideológicos? A extrema esquerda querendo dar um jeito nos 60% social e a extrema direita querendo dar um jeito nos 40% biológico. O extremo-centrista iria tentar as duas coisa, poderíamos imaginar… Todos aqueles com DNA aprovado iriam para o colégio interno, o resto… bem o resto…

O fato é que seleção genética (e vale lembrar que os cientistas nazistas conheciam a hereditariedade genética mendeliana, mas não a sua confirmação com a descoberta do DNA… e suas consequências práticas… o “ariano” bem poderia ser outro para seu desencanto…) ou escola boa (aquela que fomenta a vontade de aprender e a criatividade) para todos levam, todas duas vertentes ou tentativas, a um mundo impossível, sem que hajam antes robots para pegar no pesado… Um mundo só de doutores, cientístas e/ou intelectuais seria um mundo de sofrimento, pelo menos nos rodízios obrigatórios para a cata do lixo alheio… 😉 Temos que chegar nos robots primeiro, do jeito que der, e conseguir a imortalidade, porque a inteligencia pode ser eterna e é montada em um corpo nada eterno, pelo menos por enquanto…

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
Esse post foi publicado em Cultura Popular, Divulgação Científica e Tecnológica. Bookmark o link permanente.

2 respostas para Inteligência: 60% Sorte 40% Acaso

  1. Max Dias disse:

    Caro João, esse é um assunto fascinante, e acho que já comentei com vc o artigo de capa de uma Scientific American (“Can we get any smarter?”, Julho 2011), onde o autor, Douglas Fox, apresenta suas pesquisas, que concluem não ser possível aumentar a inteligencia através do “improvement” do hardware, isto é, o cérebro. Primeiro, porque não dá para aumentar o tamanho da cabeça, o que inviabilizaria o parto (a não ser, digo eu, que o cerebro crescesse para cima, e nossas cabeças adquirissem o formato de “warheads” – mesmo assim ia ser dificil acomodá-las no utero e o aumento do comprimento dos axonios diminuiria muito sua performance). Em segundo lugar, não dá para reduzir o diametro dos axonios para adensar os circuitos, porque os mesmos, de natureza orgânica, deixariam de funcionar; e assim por diante: se quisermos aumentar a velocidade, os axonios teriam de ser mais grossos, e não haveria espaço, &c. A unica saida, comenta o autor, é a inteligencia social, do tipo das abelhas, onde a interconectividade (internet?) e a especialização seriam prioritárias – meio que um sonho impossível em organismos tão complexos como os nossos.

    Mesmo sendo a inteligencia mais um comportamento do que um dom, pelo que diz o artigo, é impossivel existir pessoas com o QI de 300 ou mais. Fizeram um filme de entretenimento sobre o assunto (“Sem Limites”), onde uma droga acelera o cérebro, produzindo QI de 900 e mais, mas com rebotes terríveis, de degradação do orgão, loucura, &C. Pura fantasia, mas, sei lá, não de todo descartável, essa idéia de esteróides mentais. Mesmo assim, chegar a QIs duas ou tres vezes maiores que os genios conhecidos…Não dá mesmo! O que fica para consideração é exatamente o que vc levanta, a influencia do meio ambiente e a melhoria do métodos de ensino, tentando ao menos subir a média geral de 110 para 120-130, o que já seria um grande avanço.

    Claro que algumas pessoas nascem mais equipadas de miolos do que outras – tive um empregado, décadas atrás, que era um gênio verdadeiro – apreendia em 5 minutos o que a maioria demorava 1 dia para tal. Um sujeito de origem humilde, sem mais escola do que dois anos de primário, mas que entendia e consertava qualquer TV a partir de uma breve leitura de alguns cadernos desses impossíveis cursos por correspondencia. Era espantoso. Aprendia a tocar qualquer instrumento (violão, piano, o que fosse) por conta própria, em menos de tres dias. Aprendeu a dirigir uma moto em cinco minutos, na minha frente, com alguns minutos explicativos. Mas se entediava tanto com esta facilidade, que virou um boêmio insuportável, perdeu a familia e o emprego e hoje, aos 43, é um traste de sarjeta na pequena cidade vizinha, com o corpo típico dos condenados pelo alcool, inchado em cima, pernas fininhas (ainda) em baixo, já meio de cor de madeira, completamente desperdiçado e imprestável.

    Não tinha a estrutura e a disciplina necessárias para exercer a genialidade. Fiquei consternado, é claro, e na época tentei de tudo para não perder uma preciosidade dessas (chegou a fazer uma máquina de pulverização usando peças de ferro velho e rebites pop que funcionava melhor que o original que copiara), mas foi impossível. O pior é que seus pares à sua volta não compreendiam a situação, chegando a achar que o doido era eu, tão preocupado com um simples bebum como aquele…

    Esse é um dos grandes problemas: os superdotados, os genios que nascem nas classes menos favorecidas em geral não são detectados a tempo de evitar a destruição de si próprios, porque poucos ao seu redor são capazes de perceber isso. O genio, principalmente na infancia, se julga uma aberração é é muitas vezes visto como tal, o que o destrói emocionalmente já na adolescencia. Como resolver isso?

  2. João Canali disse:

    Max, esse desperdício só pode ser minimizado por avanços científicos que sejam capazes de determinar a qualidade dos 40% do hardware. Não falo de testes psicológicos bobocas, falo de exames que, aperfeiçoados, fossem capazes de determinar uma genética propensa a gerar o mais intelectualmente dotado e separar esse indivíduo de circunstancias adversas em nome do interesse da coletividade. Agora você imagina o perigo que é lidarmos com essa questão eugênica, digamos assim… Existe um descompasso muito grande entre as tecnologias sociais (crenças, valores, etc.) e as tecnologias advindas do conhecimento científico… As pessoas que usam a lógica verão esta discrepância crescer cada vez mais até que alguma coisa surja para modificar esse quadro… O quê, não me pergunte.

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