O Que Estamos Fazendo?

Nesses momentos de contraste para impasses adormecidos e empurrados com a barriga, a humanidade está revisitando todas as suas crenças e valores e isso é tão assustador quanto maravilhoso. Vômitos aliviam mais fedem. Estaremos aptos a admitir erros? Onde e com quem está a credibilidade? E os mais jovens, aqueles sem perspectiva histórica e com aquela vontade de viver tudo o que já vivemos e provamos? Para eles tudo parece fácil, possuem tempo para gastar em redescobertas… E os mais velhos? Diante o ruir de um mundo o qual acreditavam? Estaremos assistindo a um suicídio civilizatório? Afinal a “velha sacanagem” está mais presente do que nunca, ainda somos fruto do acidente mutacional que permitiu o pensamento que junto trouxe a consciência da vida e da morte… Único animal que sabe que vai morrer e que possui então o desafio de dar sentido ou significado real (esqueçam as baboseiras socializantes, o lodaçal de falsos mitos e dogmas que as sociedades e civilizações inventam para permitir a vida em coletividade…) a sua existência… Tendo como ajuda apenas o inato instinto de sobrevivência e uma imensa curiosidade, essa coisa abstrata que é a parte nobre do ser pensante. A maioria, 99%, ainda comete um suicídio cognitivo e se deixa iludir com fantasias da esperança mística…  Falo dos 1% que toparam o desafio de racionalizar a encrenca que temos nas mãos, seja qual ela seja.

Estamos sozinhos com o carro enguiçado no meio de um daqueles desertos americanos cortados por uma retilínea estrada… Vamos dizer… Uma daquelas estradas pouco freqüentadas que levam ou voltam de Las Vegas, só para trazer uma imagem hollywoodiana que todos consubstanciarão em suas mentes de maneira assemelhada. De tanto tentar religar o carro, aparentemente, a bateria parou de funcionar… Então nos damos conta de como somos falhos…. O painel do carro recém alugado é totalmente digital, e, obviamente, sem bateria, não pode ser lido… No meio da pane emocional de enguiçar no meio do nada e ficar tentando religar o carro, esquecemos de verificar se o mesmo tinha combustível para a viagem que nos propusemos a fazer… Quanta burrice ou quantas falhas cometemos quando estamos estressados por uma situação difícil! Saímos da locadora sem verificar se tínhamos combustível para entrar em um deserto! O estresse era em função de fazermos a viagem durante o dia, as estradas do deserto só contam com a Lua e os faróis dos veículos para sua iluminação noturna e estávamos em plena Lua Nova… Então, inevitavelmente começamos a travar uma guerra de pensamentos… Que raio de tecnologia, em vez de melhorar piora em troca de uma modernidade cuja função é apenas ser diferente para vender mais, para ser um novo brinquedo bonito… Mas foi um carro velho que nos levou a um hospital a tempo de salvar nosso filho de 3 anos com edema de glote após comer um minúsculo pedacinho de sardinha em lata dado pelo pai que não poderia saber que a criança era alérgica ao conservante… Não, definitivamente não é possível abandonar a tecnologia depois de tê-la conhecido ou provado, se fosse uma droga seria a mais poderosa de todas… Mas não foi apenas o carro que salvou o nosso filho, a tecnologia medicinal está toda emaranhada com as demais tecnologias, uma coisa leva a outra… Ficarmos parados no deserto é um preço muito barato para tudo que obtemos com as tecnologias, muito provavelmente até estaríamos mortos desde o último dente extraído sem o antibiótico que mata na hora qualquer possibilidade de infecção dentária, que de tão vulgar já matou centenas de milhões ao longo da história humana… Blasfemar contra a tecnologia que em certas horas de nada adianta ou que pode ser um remédio pior que a doença é apenas um lamento infantil, o mesmo que um índio partir sua zarabatana por não ter conseguido acertar a caça pretendida…. Quebrar o celular que não dá sinal no meio do deserto? De que adiantaria?

Impasses são muito piores do que erros. A definição de erro já implica na ciência de qual direção devemos tomar, seja ela bem sucedida ou não, sabemos que temos que acabar com o erro e, pelo menos, é mais ou menos fácil identificar o que não devemos fazer para repetir o erro. Impasse significa o meio ponto entre um acerto e um erro, o que é pior, ambos hipotéticos. Como se não fosse possível piorar a situação dos impasses, existe a possibilidade de estarmos decidindo entre dois erros ou dois acertos não excludentes ou excludentes um do outro. Impasse é um momento de transição onde não vamos a lugar nenhum por não termos certeza do que vamos encontrar… Logo  estamos diante a uma equação algébrica com 3 variáveis incógnitas. É melhor ficar parado vendo o que acontece ou ir para a direita ou a esquerda? Não é exatamente isso que está acontecendo nesse mundo em crise? Sendo pessimista (quando menciono o mar de falsos dogmas o qual a humanidade agora se afunda) estamos imersos no erro… logo não o enxergamos de fora, não o identificamos e toda e qualquer ação ou não ação resulta em perda, vista aqui como algo que não sabemos o que é mas que certamente não gostaremos. Chega a ser engraçado…

Devemos deixar o carro e caminharmos para frente, já que o último posto de gasolina o qual passamos é muito longe para pretendermos alcança-lo antes de escurecer. Será que a distância que conseguimos divisar a frente, sem sinal de um posto, pode ser percorrida antes de anoitecer? E se chegarmos onde os olhos alcançam e de lá nada divisarmos? Ficar no carro a espera de surgir alguma forma de socorro possui a vantagem de termos proteção contra o frio e animais da noite… é mais fácil alguém ver o nosso carro do que somente a nós… Inventamos qualquer coisa para nos livrar do medo do risco, essa que é a verdade… Vem a mente a lembrança da piada do indivíduo que chega no inferno e se vê obrigado a escolher entre ficar no mar de merda ou no mar de fogo… No mar de fogo não conseguiu ver ninguém, o mar de merda estava superlotado, cheio de cabecinhas para fora do líquido viscoso… Obviamente escolheu o fétido mar. Quando começou a entrar, escutou um monte de gente gritando em vários idiomas diferentes o qual não entendia… Então parou e retrucou: Vai dizer que aqui no inferno não tem um brasileiro, ciô? Uma das cabecinhas retrucou com sotaque de português: Òh gajo… está cheio deles sim, todos lá no mar de fogo… Que vai ser o destino do menino caso entre neste mar com essa ginga de malandro que acabou de enganar o diabo… e a fazer marolinhas para todos nós que estamos aqui quietinhos com o nariz para cima tentando esquecer de toda essa merda a qual nos metemos e a porra dessa dor na nuca que não passa.

O pior nesses tempos é ouvir o retorno da ladainha dos radicais de esquerda, felizes como pinto no lixo… Ainda limpando as vestes do pó que sobrou do muro (e com apenas dois “maravilhosos” modelos a oferecer: Coréia do Norte e Cuba), estão tendo seus dias de vingança, centrando seu fogo no império capitalista… Ôh demonização gostosa, devem pensar… “Tá vendo eu não disse? Só podia dar nisso… E vocês se deixaram enganar por aquele negão, ele é igualzinho ou da mesma laia do que os brancos azedos que o antecederam…Obama na surdina está conseguindo tudo que o assassino do Bush não conseguiu… matar Bin Laden, o Euro, trazer para o ocidente o controle do petróleo Líbio (agora a segunda maior reserva conhecida, esqueceram até o segundo lugar que era do Iraque tinha…) sem gastar um soldado e, com sorte, fazer Israel cumprir seu papel de gendarme ocidental no Oriente Médio (e esganar os chineses que tiram do Irã 11% do que consomem…), depois de tantos desgastes com aquela bobagem de terra santa… De penetra, sem desfraldarem suas bolorentas soluções estão aproveitando… Enfiando o dedo na ferida totalmente aberta de um sistema financeiro totalmente equivocado, da óbvia falência do sistema representativo  pela evidente compra dos políticos, do escandaloso atrelamento da mídia  ao poder financeiro dos anunciantes por conta das novas tecnologias que descapitalizaram os órgãos de imprensa e de sistemas judiciários sem o menor controle da população, etc (é muita coisa mesmo)…

O fato é que durante essa noite mal dormida dentro do automóvel enguiçado, os pensamentos de que o carro alugado deveria ser de 4 cilindros ao invés de 8, ter a transmissão dianteira ao invés da traseira, não leva a nada… Carro sem combustível não anda… Se fosse elétrico, em uma total mudança do sistema de propulsão, também não iria  resolver, se as baterias não fossem carregadas antes da viagem. Não existe solução capitalista para mão de obra excedente, seja esse desemprego gerado pela adoção de novas tecnologia, exportação de empregos e poluição para fábricas em alhures ou por simples adequação econômica de mercado… Se o salário desemprego for sem limite de tempo o pessoal agradeceria e nunca mais levantaria cedo para trabalhar debaixo de neve ou calor… Não parar de crescer, para sempre ter empregos as custas do consumismo é suicídio planetário, os recursos acabam… Serão sazonais crises uma respirada do sistema? E no sistema comunista, o fim do desemprego significa a infelicidade geral e irrestrita de 99% da população que acaba sendo, ao longo do tempo, obrigada a trabalhar no que não gosta… Não foi por sonhar com Bentleys, iates e castelos de vida suntuosa que derrubaram a União Soviética e a China teve que abrir sua economia… Será que os coreanos do norte e os cubanos são o 1% feliz da humanidade?

Mas que solução então?

Toc, toc, batem no vidro do carro…

__ Seu guarda, ainda bem que o senhor apareceu… Acabou o combustível e fiquei parado aqui a noite inteira, acabei dormindo, o senhor é o primeiro que pára…

__ Saia do carro devagar e me passe os documentos do senhor e do veículo… Disse o guarda com a mão sobre a coronha da arma.

__  O senhor não está acreditando em mim?

__ Ponha as mão sobre o veículo e espere eu consultar a validade de seus documentos…

__ Como? O senhor tem acesso a internet desde o seu carro? O meu celular não captou nenhum sinal…

__ Verifique a bateria do seu celular, ela deve estar descarregada… Aqui o sinal é muito bom.

__ É verdade… Puxa como não vi isso!!! Quantas mais coisas não estarei deixando de ver? O que o senhor está anotando aí?

__ O seu ticket. O senhor está sendo multado por não ter abastecido o carro, como o senhor deve saber, na maioria dos estados americanos isso gera uma multa.

__ Mas como? Não basta o castigo de ter ficado aqui a noite inteira nesse deserto friorento? O senhor acha que eu deixei de abastecer de propósito ou falta de dinheiro? Aliás… é crime não ter dinheiro?

__ E quem é que paga o meu salário por estar aqui lhe multando, o espaço que o senhor ocupou durante essa noite, o ar que o senhor subtraiu do deserto para respirar, por estar lhe prestando essas informações… já que o senhor não é desse estado e não paga impostos aqui?

__ Mas, o senhor não vê que é por causa disso, dessa sua impiedade gananciosa, desse sistema que se apodera até do ar que respiramos que o mundo está assim, acabo de passar a noite pensando nisso.

__ O Estado de Nevada não tem culpa do senhor estar ocupando uma estrada estadual. O senhor poderá recorrer da multa, tem advogados especializados em multas, o senhor não precisa nem ir ao tribunal… Pelo que está falando o senhor deveria é estar ocupando a praça em frente a Wall Street. Aqui não é para reclamar do sistema.

__ Seu guarda, com todo respeito, o senhor me lembra o Robocop… Será que vão transformar o espaço em frente a Wall Street em um parque temático dedicado a demonstrações contra o sistema? Me empresta seu celular por favor… Dois minutos depois…

__ Seu guarda eu fui precipitado, eu achava que o carro parou por falta de combustível… Mas ao falar com o pessoal da locadora para que eles providenciassem o reboque, eles me informaram que entregaram o carro com o tanque cheio e que pelo tempo que eu dirigi eu devo ter meio tanque ainda… O que nos leva a conclusão que houve uma pane elétrica nesse veículo, logo a sua multa não procede toma ela de volta aqui… Agradeça ao Estado de Nevada pelo ar respirado. É muito bom quando a razão está do nosso lado. Essa é a alavanca de quem está em frente a Wall Street.

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
Esse post foi publicado em Comentários Políticos, Cultura Popular, Ideologia, Política Internacional. Bookmark o link permanente.

2 respostas para O Que Estamos Fazendo?

  1. evandro barreto disse:

    Olá, João,
    Chego de viagem, entro no seu blog e recebo em cheio o impacto deste texto brilhante e emocionante.
    Como a saga do deserto, segundo entendi, acabou em happy end, sobretudo quanto à criança, posso me concentar no relato quase joyceano,Dublin de areia, o ser e o entorno trocando passes vertiginosos, marx-friedman-ows-bugs siegel-mcluhan-law&order-tecnototalitarismo, facilitadores que dificultam, náufragos do século 20 sabendo que vão morrer na praia do século 21, o peso do tudo, o peso do nada, virginawoolfviuavida oscilando entre o tédio e a angústia. E porque somos isso tudonada, a lucidez doi, mas passa.

  2. cesarbarroso disse:

    João,
    Não teria nenhum sentido renegar a tecnologia. Ela é o patinho bonito da civilização. Ela nos livra da dor de dente. E só isso é o bastante para que a bendigamos. Bem verdade que ela criou o cogumelo de Hiroshima, mas a bomba só atingiu uma cidade, e a dor de dente é universal.
    Para mim, a questão se resume em não conseguirmos mais pensar e resolver as questões básicas. O emaranhado é colossal, e bota muito colossal nisso. E para isso não há tecnologia que resolva. Ou melhor, há sim, mas não conseguimos fazê-la funcionar a nosso favor.
    Tome como exemplo essa comissão do Congresso americano formada por seis democratas e por seis republicanos para tomar medidas para a redução do deficit. Não foi a lugar nenhum. Eles não conseguem pensar. Há um bloqueio devido a preconceitos e teorias. Eles não conseguem pensar com claridade, estão bloqueados. Alguns dirão: têm outros interesses. Eu acho que esses “interesses” são um véu que encobre sua incapacidade de pensar. Se pensassem, o mundo não estaria da forma que está. Perdemos o controle, e vamos ladeira abaixo, sem freio.

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