Perguntas Difíceis

Lendo essa notícia diversos pensamentos me ocorrem. Vejam o caso de Cuba, naturalmente, por força do estado não ter como se financiar (o que para mim sempre significa um mistério, afinal podem emitir dinheiro o quanto quiserem e manterem os preços congelados e limitar o consumo individual ou familiar na marra… ou não? Prejudicaria as trocas internacionais necessárias a uma vida moderna a partir do momento que uma sociedade não tem como produzir tudo que consome e ao mesmo tempo experimentar os avanços da ciência e da tecnologia que todos querem ou precisam? Deve ser por aí… Mas é necessário um economista para explicar isso com perfeição.) resolvem acabar com a única promessa de peso de uma sociedade comunista ou socialista que é o compromisso de todos os cidadãos terem um salário para sobreviver e um teto descente para dormir, tenham onde trabalhar ou não… Isto é… “fica ali naquele cantinho fingindo que toma conta de quem senta no banco da pracinha… se quiser ganhar um pouquinho mais e não for um apreciador do ócio, terá umas vagas de assistente de legista, de coveiro, limpador de bueiro, varredor de rua, etc… se fores um aluno aplicado e cheio de méritos, poderá provar isso na prática e ter uma vida razoável… ah, todos podem livremente se dedicar a uma arte qualquer e tirarem um pouco ou um razoável complementar por fora…” Será que é isso que pretendem introduzir agora? O direito de produzir um por fora seja com arte ou comércio? Parece que não, falam em funcionário público ficar desempregado sem bolsa família ou escrotal. Ou, finalmente, concluíram que sem dar um incentivo o camarada se acomoda e todos acabam preferindo tomar conta do banco da pracinha onde ganham pouco, mas não se aborrecem nem são pressionados? Aliás, os chineses definitivamente parecem ter descoberto isso, mas acabaram com a lógica comunista de garantir um emprego a todos, ou melhor, que já exerciam de modo sofrido, na base de quase um trabalho escravo (eu mesmo vi na China, prédios residenciais ao lado de fábricas, os funcionários se portando como alunos de um colégio militar interno, em fila indiana para entrar ou sair da fábrica…). Muito em breve estaremos escutando de desemprego na China, basta o ocidente parar de consumir e o mercado interno deles não funcionar trocando comida do interior (proibido de migrar para as cidades) pelas bugigangas eletrônicas produzidas nos grandes centros que prosperaram… Pelo menos a China é rica em espaço e recursos naturais… o que para mim ainda é o que segura a peteca… Contudo, os chineses tem investido pesado em energias alternativas, algumas notinhas na imprensa avisam… o que é óbvio, já que são obrigados a importar mais de 11% (deve ser mais, contudo é um dado estratégico… classificado eu diria…) da energia que consomem cada vez mais… Se todos os Zé Mao Né da China forem devidamente resgatados à condição igual ao do emergente brasileiro, o resto do mundo submerge sem recursos naturais suficientes.

Porém, o ponto é em relação ao que me parece cada vez mais patente… Não termos como montar um tipo de sociedade que, por longo prazo e em circunstâncias regionais e geográficas diversas garantam uma vida que agrade a maioria de gregos e troianos. Não fosse Hollywood suspeita, já era mais do que tempo de termos um remake do Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley… Quantos novos elementos de identificação poderiam ser incluídos em uma nova versão cinematográfica daquele livro, mesmo que contendo elementos comerciais (que é o que interessa aos produtores). Viria a calhar nesse instante de imensa lucidez onde os protestos contra os governos e instituições nacionais, pela primeira vez, tanto nos EUA (em Wall Street, a coisa toma vulto… com toda razão dos impotentes…) quanto na Europa, não levantam bandeiras e, como o quê, admitem não terem ou conhecerem proposta alguma, só a percepção de que está tudo errado… Don’t be. (se é que interpreto o significado profundo desse slogan) Como que a clamar pelo surgimento de um novo Karl Marx, para inventar uma ideologia ainda inexistente que fuja dos fracassos que são e foram a monarquia, a teocracia, o comunismo, o capitalismo e todas as combinações de meio termo entre elas que se tentaram até agora. Tudo fracassou ou só durou por pouco tempo, até que a coisa quebra de dentro fora, não adianta culpar inimigos externos…

Se voltarmos ao básico, encontraremos a porta mais fechada que existe. Formamos sociedades sem termos atributos físicos definidos e espontâneos de berço que distinguissem as ou definissem tarefas de cada indivíduo na estrutura social. Sob esse ponto de vista os índios mais selvagens conseguiram a sintaxe mais plausível, todavia essas sociedades primitivas são dependentes de uma total simbiose com a natureza que lhes cerca, não são esquemas exportáveis… Se, de curiosa sacanagem, o antropólogo Dr. Mengeléia  lançasse de paraquedas uma tribo de esquimós na Selva Amazônica e uma tribo de Guaxamirins (o nome que veio a cabeça) no Círculo Ártico, o resultado, necessariamente, seria desastroso para os índios da “suave”experiência.

Não dá mais para abdicar de alguns conhecimentos e sabedorias tecnológicas, ninguém vai mais topar viver uma vida campesina com expectativa de vida de 40 anos… Nas primeiras faltas de Advil, lente dos óculos e, principalmente elas, as dores de dente que o Advil não segura, ainda mais não os tendo… todo mundo desiste e achará melhor invadir a Arábia Saudita, tomar Meca e trocar direito a beijar um meteorito negro por barris de petróleo… A ética vai para o espaço.

Somente as formigas, os cupins e as abelhas é que possuem esse imenso privilégio de nascerem com predisposição inata a vida social. Nessas sociedades o desempregado nasce morto, ou melhor, nem nasce… e ninguém precisa se preocupar em passar em um concurso público ou entrar para a política para disputar o cargo de rainha, tudo é automatizado pela natureza. As sociedades humanas são artificiais e ponto, temos que evoluir nessa artificialidade e montar algo que agrade a maioria a ponto das minorias se convencerem que possam estar erradas. A suspeita de que ainda não encontramos esse ponto de equilíbrio porque esbarramos nos poderosos grupos que conseguiram algo bom só para si é valida, mas não explica tudo…

Ao longo do tempo tenho remoído uma impossibilidade por que passa todas as sociedades modernas, onde todas as ideologias apregoam a oportunidade de estudo provida pelo estado para suas populações. Ora, se esse estudo fornecido for bom, teoricamente, muito poucas crianças deixariam de progredir nos estudos e sendo assim: QUEM É VAI VARRER AS RUAS? Porra! Ah… os poucos maus alunos? Voltamos então a tese de que também temos atributos físicos e mentais que nos encaixam na sociedade como se fossemos formigas? Se tivéssemos boas escolas teríamos igualmente poucos maus pais, o que, nesse caso, poderia explicaria os maus alunos… Conclusão: Os órfão deverão ser os limpadores de bueiro de qualquer outra ordem social que encontremos… Não. Basta pagar muito bem àqueles que possuem tarefas digamos… desagradáveis… Continuar com a hipocrisia de dizer que não existem tarefas desagradáveis é querer tapar o Sol com a peneira… Mais… É querer continuar ludibriando os pobres coitados que as possuem… É melhor continuarem acreditando que aquilo é bom? Será que de fato se conformam? Entretanto, quanto é pagar mais por essas tarefas desagradáveis? Um lixeiro vai ganhar mais do que o médico não legista (que esses merecem uma fortuna no meu entender… embora eu saiba que acabam se acostumando…)? Mas isso seria um digno incentivo aos estudos? Não seria algo errado premiar quem não estuda? Becos sem saída, estamos cheio deles. Isso também está pesando.

Okay, nada é perfeito, mas o que quero provar é que boiamos em um mar de mitos, muito além daqueles meramente religiosos, que são mitos praticamente já assumidos assim como comerciais de Pirâmides da Fortuna em forma de carnês da felicidade… Falamos de Meritocracia  nos esquecendo sempre que se isto é posto em prática, acabamos com qualquer tentativa democrática… Teremos sempre gente com maiores méritos no poder, sem nenhuma chance para aqueles que não possuem mérito, ou melhor, não possuem o mérito desejado ou imposto pela sociedade já dominada por poderosos meritocrátas que certamente ditarão o que é ou não é mérito, obviamente, em função de seus próprios atributos… A formiguinha trabalhadora afirmando que tem que ser em maior número que as formiguinhas soldado, já que não há inimigos em volta do formigueiro… Que se dane a defesa preventiva… Gritaram elas.

Minha conclusão é que temos que rever tudo que temos feito em termos de montagem social deixando de lado mitos e valores que temos acalentado durante milênios e transparecer a discussão… E promover para início de conversa um controle de natalidade que não tenha nada a ver com o conceito de liberdade que mitologicamente abraçamos. O quê? Isso não pode ser feito na presença ou com o conhecimento do povão se não a casa cai? São todos de uma forma ou de outra enganados? Só aceitam sua participação na sociedade porque acreditam em deuses? Que isso é conversa para intelectual no fundo da cantina da universidade da zona sul? Não. Dá pra ir de blog sim, O povão não lê blogs… Sejamos formiguinhas intelectuais.

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
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6 respostas para Perguntas Difíceis

  1. Cesar Barroso disse:

    João,
    Seus posts denotam uma premência enorme por soluções sociais, da qual eu e poucos outros comentaristas do blog compartilhamos.
    Fomos jogados no universo para uma vida curta dentro de sociedades antigas, com padrões de pensamento que necessitam serem revolucionados. Temos pouco tempo para mudar as regras do jogo.
    Cada vez estou mais convencido que a procura de soluções interiores, ao invés de nos afastar do grupo, nos aproxima e nos torna agentes de mudança.
    Acho que Steve Jobs é um exemplo disso. Zen e ativíssimo, deixando sua vida interior transbordar para a exterior.

    • João Canali disse:

      Cesar eu acho que ao expressarmos pensamentos, seja em que direção for, nunca deixaremos de refletir uma individualidade, as soluções interiores que, creio eu, você se refere. Jobs de fato é um exemplo disso, concordo, mesmo achando que houve um certo exagero midiático no culto a sua personalidade, após sua morte… Compreendo esse exagero como algo imediatamente derivado da crise econômica que vivemos e a nossa cultura de “caça-messias” (parafraseando a expressão “caça-fantasmas”). Jobs, nos últimos anos era o cara que trazia a “boa nova” em cada gadget recauchutado que lançava pessoalmente no mercado… O grande milagre, digno de andar sobre as águas, era o de fazer acender o desejo de consumo em um mercado já saturado, aliando um bom design a um produto já existente ou consequência óbvia do estado tecnológico… Ora se a balela desenvolvimentista de crescimento contínuo é sempre apontada como a única salvação do sistema… Quantas vezes já não escutamos o bordão político “Só com a retomada do crescimento os empregos (jobs) retornarão…” 😉 Com seu interior oportunista no bom sentido, Jobs era a mais perfeita fotografia dessa vontade, ainda mais acalentando o mito do inovador americano (Irmãos Wright, Edison e tantos outros…) que diz com todas as letras que não importa que o brinquedo seja feito na China ou em alhures desde que tenha sido “Bolado in USA”. Agora, se formos afirmar que o espírito corporativo da Apple é um reflexo do interior de Jobs, teríamos que desconfiar que o mesmo seria o velho e bom avarento de sempre… Brincando poderíamos dizer que sua casa despojada não era por paixão ao design ou pela simplicidade Zen… era para não gastar muito mesmo… Quer linhas mais simples que o cofre do Tio Patinhas? Na verdade, se pensarmos bem, os avarentos que estão na base desse capitalismo do tudo por dinheiro que ora está sendo acusado de “ferrar” com o mundo globalizado. Comprar um equipamento Apple nunca foi somente pagar mais por um produto de maior qualidade (sem negar o fato) significava também ficar preso a uma cadeia de outros produtos igualmente caros, além de formatos proprietários que desequilibravam a relação custo benefício em favor da companhia e seriam nítidas provas de tentativas monopolizadoras.

  2. Luiz disse:

    João Canali (ex-Capitão Bload da Bucaneer) escreveu:

    “…afinal podem emitir dinheiro o quanto quiserem e manterem os preços congelados e limitar o consumo individual ou familiar na marra… ou não?…

    Canali, penso que não. Emissão de moeda é uma prática que hoje em dia nem mais se houve falar. É quase um suicídio econômico. Nos anos de hiperinflação tentaram fazer isto no Brasil e foi um fiasco.

    São as forças naturais de um mercado livre que mantêm o equilíbrio econômico, isto é, uma situação onde a quantidade de produtos ofertados é aproximadamente igual à quantidade de moeda. O exemplo mais conhecido entre nós, é a chamada lei da oferta e da procura. Se a oferta aumenta (por exemplo uma produção excessiva), os preços caem, os produtores são obrigados a reduzir os preços para se adequar à quantidade de moeda existente, sob pena de verem seus produtos encalhados, e o caos ou a falência. Por outro lado, se a procura aumenta (um exemplo: a emissão de moeda), tende a haver alta dos preços, justamente devido a quantidade de moeda ser maior que a quantidade de produtos (ao ver que tem mais gente que o de costume procurando seus produtos, o produtor, que não é bobo, sobe seus preços), e se configura o processo inflacionário, que, se persistindo, chega à famigerada hiperinflação que já experimentamos em passado recente.

    Obviamente não é só a emissão de moeda gera inflação. Uma economia muito aquecida também pode desembocar em inflação. No Brasil isto aconteceu há uns dois anos atrás quando tiraram ou reduziram o IPI para carros populares, gerando uma demanda forte que obrigou o governo a voltar o IPI para os níveis anteriores. Mas a ferramenta preferida dos governos para conter aumentos inflacionários, no geral, é o aumento dos juros, justamente para frear consumo (a procura) e tentar manter o equilíbrio entre produção e moeda.

    Então, voltando ao caso de cuba, penso que a emissão de moeda nos dias de hoje seria o pior dos remédios. Poderia ter um efeito colateral danoso.

    Luiz

    • João Canali disse:

      Oi Luiz, bom vê-lo de volta aos comentários… Infelizmente a emissão é mais comum do que nossa vã filosofia imagina… Ela pode se dar também pela emissão de títulos do governo para cobrir despesas governamentais como recentemente aconteceu com grande alarido, no episódio em que a nota de crédito dos EUA foi rebaixada. Embora você possa arguir que se trataria de uma dívida a ser paga com o dinheiro dos impostos ao longo dos anos, significa dinheiro novo que entra na economia, mesmo que aos poucos (o que houve foi uma autorização para a tomada de dívida até aquele montante), essa emissão de títulos da dívida pública totalmente conversíveis em dinheiro, não deixa de ser uma emissão e foi a ela que me referi naquele texto… Na emergência qualquer governo emite… E não está sendo exatamente esse o problema dos tais países da zona do Euro? Países que deixaram de ter o poder de emitir dinheiro para cobrir seus buracos (mesmo a custos inflacionários) já que o Euro é emitido por um banco central os quais não possuem o menor controle. Sua ameaça de calote é justamente desistirem de terem Euros circulando e voltar a ter uma moeda própria (e pagar quantos funcionários públicos quiserem ter… é melhor inflação do que fome…), arruinando a proposta de uma alternativa européia a escravatura do dólar nos mercados globalizados.

      No Brasil não funcionou (e o que funciona?) porque tinha um “emissor automático de moeda” que era a correção monetária que naturalmente fazia surgir o ingresso de mais dinheiro na economia ao simplesmente ao tentar “enxugar o gêlo inflacionário”. Outra causa constante de emissão de dinheiro por parte de todos os governos é quando o preço dos combustíveis (quando importados) aumenta. Se todos os preços de todos os produtos é influenciado pelos seus respectivos custos de transporte, uso de energia de fabricação e o próprio uso químico industrial da substância, todos os preços tendem a subir exigindo uma maior base financeira… Quando o preço baixa, seja porque os americanos façam as vontades dos sauditas ou, de alguma maneira, ameaçem indiretamente produtores, refinadores e distribuidores, aquela base financeira estendida volta ao mercado internacional em forma de investimento dos países produtores (que via de regra pouco usam do dinheiro em gastos públicos em seus países) e cai no colo dos bancos internacionais que tem que enterrar esse dinheiro em algum canto que dê a melhor remuneração pelo menor risco… Nunca dá certo e a inflação setorial (ou global) que causam contamina o resto da economia… Até porque o sistema financeiro internacional, livres de maiores controles por parte das plutocracias do mundo ocidental, agem de forma irresponsável.

      Mas é claro que a partir do momento que não existe um lastro real para a moeda emitida, o controle da expansão da base monetária (que sempre terá que haver, já que populações sempre crescem, mesmo que a base de imigrantes) é uma quimérica continha de economistas… Esses mesmos caras que mentem na TV todos os dias nos dando certeza que economia, apesar de lidar com números, é uma ciência nem um pouco exata. Quem é que vai se dar conta que um banco central qualquer emitiu uns milhões a mais para cá outros para lá? Se dissessem que os deuses do Olimpo lhes mandaram fazer assim ou assado, teriam a mesma credibilidade.

      • Luiz disse:

        Pois é João, quase não tenho tido tempo… debates longos então…
        Você não acredita na tolice que fiz: me aposentei, e permaneci no trabalho. Poderia estar agora aqui em longos debates. Mas não, como um tolo tenho que trabalhar. Bem fez o Max que foi pro sítio em Londrina, de papo pro ar, ou o Roger que foi para Itaparica ver o que a baiana tem.

        Luiz

  3. Luiz disse:

    Retifico meu texto:

    Onde se lê: … se houve falar …
    Leia-se: … se ouve falar …

    Onde se lê: … moeda gera inflação …
    Leia-se: … moeda que gera inflação …

    Onde se lê: … frear consumo …
    Leia-se: … frear o consumo …

    Onde se lê: … cuba …
    Leia-se: … Cuba …

    Luiz

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