Onde o Futuro Não Chegou – Parte Um

Dom Quixote Chega ao Futuro... by João Canali

Alguns fatos ocorridos no noticiário durante as últimas semanas me fizeram refletir sobre a evolução da sociedade – da americana em particular – nesses anos todos que moro aqui. Me considero um observador privilegiado, pois, na condição de imigrante naturalizado tenho a referência de meu outro país para comparações diversas, sem o rancor e incompreensões culturais que um imigrante ainda não naturalizado as vezes possui com o país que no fundo o rejeita. Como sabemos, o ódio e o amor nos fazem tomar partidos, nos transformam em torcedores de algo ou alguma coisa, o que embota não só o raciocínio como também aquilo que observamos. Ideologicamente sou um ateu que identifica as diversas tentativas humanas de criar uma estrutura social que sirva a esse ser de comportamento tão plástico e moldável, fruto, em última instância, do acaso universal, um acidente que quase deu certo… sendo que o “quase” é obrigatório, pois além de não termos terminado nossa jornada, não temos a menor certeza científica (falta de parâmetros) do que seria adequado ou o certo para nossa espécie. Somos tão moldáveis que corremos o risco de encontrarmos algo que se acomode a nossa existência social e nos custe mil anos de uma nova idade média, pensando que encontramos a arquitetura ideal ou a que deveria ser. Como nascemos com os mesmos apetrechos intelectuais de um bebe nascido a dez mil anos atrás , poderemos perfeitamente achar que a cultura em nosso redor é a correta, se ela for eficiente em criar essa sensação. Não temos outros exemplos a verificar, no sentido que somos a única espécie capaz de alguns feitos na articulação de memórias em função de nossa sobrevivência, cuja duração é o nosso único e tosco parâmetro de certo e errado. Com tantas e variadas culturas sociais, temos sido espelhos comparativos de nós mesmos. A comparação do passado com o presente nos dá pistas de como poderia ser o futuro, mas não garante que ele venha a acontecer.

Inicio então uma série de artigos que tenta mostrar onde o futuro não chegou, sem me esquecer, no entanto, que ele chegou fulminantemente em muitos setores de nossas vidas e conhecimento, como que a dar contraste justamente aos pontos que tentarei realçar sua ausência. Usando como ponto de partida o ano de 1995, ano que marca minha chegada para residir nos EUA, também em busca de ver antecipadamente o futuro chegar. Porém, seria incompleto não mencionar que neste ano um, hoje, simples celular era uma espécie de meio tijolo que tinha resolvido em parte uma incapacidade crônica de pilhas/baterias e antenas, um problema que se arrastava por décadas anteriores de nenhum avanço significativo e de brinquedos que nos frustavam (para aqueles que brincaram com walkie-talkies)… Hoje celulares são pequenos computadores de bolso onde podemos até ver em sua tela de alta resolução, a pessoa com que falamos… Como nos desenhos animados de nossa infância, em décadas anteriores… E no nosso entretenimento televisivo em termos de qualidade de imagem e tamanho das telas? Mas quanto tempo teria que ficar falando da revolução sócio-econômica e tecnológica causada pela Internet e o hardware computacional que a possibilita ser hoje o que ela é? Estamos assistindo a formação de uma cultura global , uma verdadeira opinião pública em escala planetária!!! Meu primeiro modem em 1995 operava por uma linha telefônica a 2400 Kbs, depois fui trocando para 9.6, 16 e 56Kbs, pulando para o ADSL sobre a mesma linha e hoje opero a 1.5 Mbps utilizando o mesmo cabo que me trás o sinal da televisão digital e o telefone fixo!!! Interajo com pessoas até na China!!! Tenho acesso a informações de centenas de milhares de lugares e a parte mais relevante do acervo de conhecimento gerado pela humanidade!!! No campo cultural e social, notadamente o das crenças e do comportamento, não poderia faltar uma evolução no uso de tantos avanços tecnológicos… Embora muito aquém das transformações tecno-científicas hoje fala-se abertamente em liberação da maconha (nos EUA a hipocrisia a transformou em remédio em muitos estados de mentalidade mais avançada), os homossexuais são “uma anormalidade normal” aceita pela parte mais inteligente da sociedade, na política, graças também a Internet, só se ilude quem quer e todos são informados a todo instante quanto a inoperância ou má qualidade dos diversos regimes existentes… O mundo está ativamente em busca de uma nova proposta, isso é patente. Por existir uma frustração, igualmente patente, quanto ao atraso da chegada do futuro em alguns setores, tentarei identificar ao longo dessa série de artigos os pontos onde ele não se manifesta a contento.

Justiça: Quando o Futuro Chega Mas não é Suficiente.

Em 1995 ainda não acostumado de todo com a cultura americana assisti  pela televisão o julgamento de O. J. Simpson e sua consequente liberação pelo júri popular da acusação de assassinato de sua esposa. Simpson fora uma espécie, digamos, de um Zico do futebol americano, daí seu crime ter tanta evidência. Se por um lado era negro em um país ainda fortemente racista, era rico e famoso em um país capitalista. Todos sabiam que somente ele poderia ter cometido aquele crime, chegou até a ser condenado por um tribunal civil (uma categoria esquisitona do sistema jurídico americano, quando alguém, para o gládio e lucro de advogados, usa a intermediação do aparato judicial de forma privada, digamos assim…) montado pela família da vítima, depois de ter sido libertados pelo tribunal regular do estado. Durante todos esses anos, houveram diversos outros casos envolvendo crimes violentos, como, de forma semelhante, temos novas novelas da Globo (que são um sucesso único no mundo, uma verdadeira metalinguagem em função de serem obras abertas, quando o autor da ênfase a esse ou aquele personagem em função de pesquisas… A velha fórmula do sucesso, falar o que a maioria das pessoas gostaria de ouvir…) a cada oito meses em média. Típica cultura de Culiseu romano em sua versão eletrônica, diriam alguns comparando os escravos aos acusados e os leões os promotores do estado… Os escravos que vão para arena são escolhidos em processo bastante democrático, provavelmente com o auxílio da análise das audiências dos telejornais, como fazem com as novelas… Qual o criminoso mais carismático e qual o crime mais horripilante, por aí… De real interesse, só serve para expressar a quantas anda a qualidade da opinião pública do país, refletindo os mais diversos casos… e que, inegavelmente, a população aprende sobre o complexo sistema judicial do país… Esse ano, depois de diversos casos onde “o bem” ganhou, isto é, onde o suspeito preso pela polícia foi julgado culpado, temos um causo para revigorar  a audiência, já que o gladiador do mal ganha novamente. Acho desnecessário entrar em maiores detalhes, até porque, confesso – dentro dos meus direitos “gostorais” – achar esses crimes cobertos de forma massiva pela mídia americana, algo tão aborrecido como os esportes americanos… Prefiro as novelas… Não os acompanho de todo, a não ser por alto, por força de impedância comunicacional… O fato é que o júri popular isentou de culpa uma mãe que durante o período de desaparecimento de sua filha até seu cadáver ser encontrado, foi capaz de comparecer a festas, se tatuar e ir para a cama com 3 namorados diferentes… O futuro chegou para as técnicas de perícia forense, como todos devem estar exaustos de saber (até o famoso golpe da barriga deixou de existir nesse período examinado), todavia, nesse caso esse futuro não foi suficiente para determinar, não a causa morte da criança, mas a maneira pela qual a criança fora asfixiada. Com as dúvidas e provas existentes, 12 pessoas do júri popular teriam que ligar seus “desconfiômetros” e darem um veredicto… Diante 3 possibilidade de culpabilidade ficaram com a mais branda, a que era tecnicamente provada e… uma óbvia assassina irresponsável é inocentada perante toda uma nação… Pasmem!!! Dividida, pelas pesquisas… O Culiseu levantou seus polegares!!! Coisa difícil em um país onde há coisa de um século e meio atrás ia-se as pracinhas para ver enforcamentos, ao vivo, de ladrões de cavalo, com muita pipoca e algodão doce, suponho… Seria uma evolução? Desde a “pracinha” a resposta é sim… Mas desde O.J. Simpson não… Contudo, não é o que nos interessa nesse caso. O grave é vermos que uma fórmula consagrada de se fazer justiça (o júri popular) mais uma vez fracassar diante toda uma nação. Mais uma vez verificamos que o pensamento de 12 pessoas não é o suficiente para que os veredictos sejam corretos ou lógicos… Ainda bem que foi no sentido de liberar um culpado e não de mandar dar injeções em um inocente, o que deve acontecer amiúde, longe das câmaras da nação… e, a meu ver algo bem pior e perigoso em termos de injustiça. Não se trata aqui de culpar as regras judiciais americanas ou as suas leis ou, ainda,  a cultura popular do país. O júri popular é adotado na maioria do mundo civilizado, uma herança civilizatória dos romanos e aperfeiçoada ao longo dos séculos. Não falo de um ponto onde o futuro talvez não chegue nunca, se a expectativa for não acontecerem erros humanos. Falo de um ponto onde o futuro para chegar terá que vencer tradições muito arraigadas.

Na próxima parte da série (já alinhavada) tratarei do dinheiro

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
Esse post foi publicado em Ateísmo, Cultura Popular, Ideologia. Bookmark o link permanente.

21 respostas para Onde o Futuro Não Chegou – Parte Um

  1. Cesar Barroso disse:

    João,
    Nada é perfeito nesse mundo.
    O sistema judiciário brasileiro esbanja imperfeição. Eu não dou mais a menor atenção aos crimes praticados no Brasil. Para quê? Para ficar puto da vida com a grana que eu sei que está correndo por fora? Com a justiça menos cega do que nunca, sempre olhando para os fatores raça e classe social? Acho que não é preciso aqui enumerar os vários exemplos recentes.
    O sistema judiciário americano é duro. Uma sociedade acostumada às leis do velho oeste, quer que haja penas duras e que essas penas sejam CUMPRIDAS. Dois milhões de trancafiados atestam o que digo. E todas as grandes novidades na investigação forense nasceram aqui. Os crimes hoje são desvendados com técnicas de alto gabarito.
    O que está acontecendo é que as televisões encontraram uma fórmula de atrair milhões de telespectadores, com o acompanhamento das investigações dos crimes mais espetaculares. Eu diria que isso começou com O.J.. As novelas americanas – soap operas – estão perdendo espaço a olhos vistos para essas reportagens. Nancy Grace, uma ex-promotora pública, atrai milhões de telespectadores. A pessoa que de uma hora para outra se torna celebridade às vezes não consegue manter a compostura. Essa Nancy dominou o processo, e foi exatamente a sua falta de comedimento que levou, ou melhor, forçou os promotores a pedirem a pena de morte para um crime cuja investigação não lhes fornecia suficiente elementos para pedirem a pena de morte. Os promotores estavam à vontade na corte, rindo constantemente, certos de que a condenação pública de Nancy acompanhada por seu milhões de telespectadores lhes dariam a vitória fácil. Acontece que a própria televisão, com seus programas sobre a utilização de técnica forenses avançadas, fez os jurados quererem mais do que as provas apresentadas para condenarem Casey “sem nenhuma dúvida”.
    Isso acontece em outras esferas.
    Na esfera esportiva, por exemplo, o Renato Maurício Prado e a Rede Globo tentaram dar as cartas na escalação da seleção brasileira durante a última Copa do Mundo, Arrastaram junto a si uma multidão de ingênuos, como você, e, porque o treinador não cedeu à sua pressão, o demonizaram. Conseguiram desestabilizar a seleção, dividir a torcida brasileira, e, junto com o juiz japonês que garfou o Brasil contra a Holanda, tiraram o Brasil da Copa. O caso tem muita semelhança com o de Casey Anthony: a imprensa se enchendo de uma autoridade que não tem, entra numa seara que não é a sua, e faz besteiras. Sempre, claro, com o apoio de um grupo de ingênuos.
    Agora, o Renato Maurício Prado e os pundits que o acompanham têm o técnico que pediram: Mano Menezes. Educado, fino, e principalmente manipulável. É disso que vocês gostam, um técnico manipulável, que coloque o time que vocês escalam: Neymar e Ganso. Os resultados por enquanto são pífios. Imaginem se o Dunga(desculmpe-me sujar essa página com o nome do leproso) empatasse com a Venezuela sem gols e com o Paraguai no último minuto de jogo!!!
    O leproso ganhou a última Copa América e a Copa das Confederações.
    Eu quero ver o que o Mano de vocês irá ganhar…

    • fbarbuto disse:

      Cesar,

      Pra usar uma linguagem futebolística em voga: você marcou um gol de placa com este teu comentário. Muito bom.

      F.

    • João Canali disse:

      Cesar você repetiu coisas que eu disse acrescentando detalhes que somente seu gosto ecumênico, digamos assim, em relação a diversas fatias da torta de maçã poderia capturar, já que tens um estômago privilegiado para acompanhar esses causos que só servem como pontos de referência para tentativas de voos maiores e podem ser vistos perfeitamente por alto.

      O problema muitas vezes não é a ingenuidade, é quando ela é usada como disfarce de uma forte teimosia e aquela coisa infanto-juvenil de não querer admitir quando perdeu a aposta da opinião mal formada, como se fossemos deuses infalíveis. Nesse mesmo sentido, chamo a atenção para a confusão que se faz em relação ao pedido da maior parte da torcida brasileira (a Globo – ou seus funcionários – só faz traduzir os sentimentos que detecta nas maiorias, falando o que este , o povo, de um modo geral, quer ouvir. Os muitos interesses deles, camuflam na omissão, no realce ou na edição dos fatos, dificilmente na tentativa direta de influenciar indo de encontro a uma maioria opinativa… São muito mais espertos que seus críticos…) que entende, em seu conjunto, muito mais do que eu, você, o Dunga e todos os comentaristas reunidos: Não se pode confundir “fazer o certo” com “dar certo”. O mérito está em tentar o que seria o mais apropriado e lógico. Se essa tentativa dá errado é porque existe uma lógica desconhecida ou ocorreu um casuísmo imprevisto qualquer. Impedir as tentativas e os experimentos quando temos nas mãos algo que visivelmente não está bom é onde mora o erro. Não foi o caso de Dunga ter trocado o “certo pelo duvidoso”… Ele não tinha o “certo” nas mãos, o único distribuidor de jogo digno do nome estava condenado pelo departamento médico (aliás esse médico do Flamengo deveria ter sido substituído junto com Dunga…) e a seleção carecia de talentos individuais, o que sempre caracterizou o consagrado estilo brasileiro de jogar futebol (estilo pentacampeão, é sempre bom lembrar… esquecendo que foi João Havelange, um brasileiro, que montou a máfia que a FIFA é hoje…)… Dunga deixou de levar os talentos que se destacavam no futebol brasileiro para levar conhecidos cabeças de bagre e machucados em recuperação… Se Neymar, do alto de sua inexperiência e imaturidade expressa em cabelinhos e brinquinhos cafonas, amarelasse como amarelou ontem (depois que levou um tapa na cara logo no início da partida, sem que o juiz nada fizesse, nem cartão amarelo) paciência, se tentou o certo. Mas, o problema é sempre aquela fotografia inicial, a qual nenhuma outra interpretação pode modificar: “Dunga é bom ganhou isso e aquilo”. Não importa lembrar que diversos outros técnico ganharam e também fracassaram, não adianta mostrar que o cara imprime um estilo retranqueiro e sem criatividade e que seja uma anta em um cargo que é também (gostem ou não) um cargo de relações públicas perante uma torcida alucinada, que durante muitos anos usou a seleção brasileira como único ponto onde poderia massagear seu ego nacionalista, depauperado por tantas más evidências.

      Contudo, fico na dúvida se lhe parabenizo pela coragem de tentar “correr atrás do prejuízo” (teimosia) nesse momento que a Copa América ainda não terminou ou se lhe previno que podes estar sendo precipitado… Afinal, os dois gols de ontem, saíram de passes de Ganso… Nem ouso lembrar ou falar que Mano Meneses está esquentando o lugar que já é de Murici Ramalho, pois tentar é preciso… sempre, se queremos evoluir… Aliás, esse é o escopo genuíno dessa série, como responderei ao Fausto…

  2. fbarbuto disse:

    Canali,

    Acredito que estou sendo pouco óbvio, mas creio que já saquei a essência da série de artigos que você vai publicar: o futuro já chegou onde a tecnologia e a ciência (que não são frias nem sem coração, mas que buscam a verdade comprovada dos fatos) deram as cartas, e falhou em chegar em tudo o mais que envolva o fator humano (no sentido de falho em suas interpretações e julgamentos tão subjetivos). Justiça. Economia (não é sobre dinheiro, o próximo ensaio?). Preconceitos. Intolerância laica e religiosa. E por aí vaí. Acertei?

    F.

    • fbarbuto disse:

      Uma correção:

      Onde se lê “… estou sendo pouco óbvio”, leia-se “… estou sendo um pouco óbvio”.

      Faz toda diferença entre a humildade e a arrogância. Sorry!

      F.

    • João Canali disse:

      Acertou no óbvio, meio bingo. Mas, além disso, eu tenho uma pretensão (pretensiosa 😉 que Dona Modéstia condenaria. Que já vou lhe revelar, pois não é segredo de pintor que não gosta que veja o quadro antes de terminado. Ficou faltando nesse primeiro artigo (meu receio é sempre quanto ao “tijolaço” de escrita, do discurso de Fidel… a profusão de leitura está sendo tão grande que as pessoas estão recuando diante o grande discurso, além de estar rolando um certo desafio quanto a capacidade de resumir… em função dos modismos passageiros da rede…) as críticas e sugestões que mostrariam como o futuro liberto dos fatores humanos lembrados por você, poderia ser diferente… Mas acertei no tocante a oportunidade que teria nos comentários de elaborar ou levantar a bola e discutir as propostas aventadas… Obrigado. Mas, o que ficou faltando (e não faltará nos próximos capítulos da série, já libertos de seu preâmbulo)?

      O tal júri popular nada mais é do que uma patuscada autoritária que já deveria ter sido enterrada no presente recente para ser apenas coisa do passado. Como em um mundo onde o serviço militar obrigatório se extingue cada vez mais, onde psicólogos, sociólogos e filósofos, jornalistas (refletindo o interesse popular) e políticos falam de liberdade individual (gays, maconheiros, etc. sem ofensas claro) o estado tem o poder de convocar um grupo de indivíduos e selecioná-los, pelos critérios que sejam, e coloca-los assim a decidir sobre a vida de uma ou mais pessoas? Caso você não saiba, não existe a simples pergunta: Você quer participar disso? A pergunta é se a pessoa teria alguma razão para não participar… quando então o camarada teria que ser criativo e inventar uma desculpa qualquer… Okay… eles pagam dias de trabalho, dão umas propininhas e lanchinhos (muitas vezes o cara é obrigado a pernoitar em hotéis para não ser influenciado pela mídia…como se fossem assim já classificados de idiotas ou pensamento próprio… ou mesmo de poderem concordar com algum pensamento lúcido e educativo que tomassem conhecimento… por que não…) mas, escondem o fato que quem gostaria de dar uma de juiz e/ou “escoteiramente” participar de uma coisa dessas obedece a um perfil psicologicamente contestável… gostar de participar de condenações? Um camarada vingativo a fim de encontrar um bode expiratório qualquer? Uma dessas antas que fazem leituras ao pé da letra do catecismo social? Ou o inverso, um cara que vê naquilo uma oportunidade de usar sua máscara social para ferrar com a sociedade que odeia… Okay… não sejamos pessimistas… Vamos pegar 12 camaradas curiosos, estudantes de direito, gente que não tem nada melhor o que fazer e quer ver se aquilo pode ser divertido, pois, gosta de contos policiais e de suspense, por exemplo… um leitor de páginas policiais que a vida toda ficou vendo na TV os crimes mais famosos e agora tem a sua oportunidade de ver aquilo de perto… Pois bem… Vejam o que fazem com os 12 pobres incautos, os expõe aos piores facínoras, olho no olho, como se a polícia fosse perfeita em protege-los dos amigos e parentes dos réus ali na platéia… Isso não é mais civilizado, isso não é futuro, tanto quanto as togas, perucas brancas, estatuas de justiça cega (em apologia ao erro e ao lugar comum) e juramentos com a mão sobre a Bíblia (como se todos, pela lei, fossem obrigados a respeitar aquele compendio ficcional… que fosse uma constituição nacional ainda faria sentido simbólico para designar o conjunto da sociedade a ser respeitado… mas mesmo assim…). Nada na justiça cheira ou respeita a liberdade individual consentida em sociedade, que, em última análise, seria o que ela tenta preservar…

      Para que o futuro aconteça é necessário não só admitir que algo não vai bem (algo já bastante difícil em função de diversos fatores conhecidos, a cultura como um todo invisível se protege estruturalmente proliferando diversas sub-crenças) mas também que alguém aponte soluções possíveis que podem ir desde remunerar bem os jurados (fazendo que a coisa tenha um sentido de real interesse, fazendo com que ele queira fazer por merecer aquilo que receberá, seja uma pessoa real do dia-a-dia) que aceitem ou não um convite de ir a corte, nunca uma ordem, até vidros fume ou salas de vídeo preservando ainda mais os elementos do júri popular; sistematizar matematicamente as evidências da promotoria e da defesa fazendo com que os juizes tenham a possibilidade convocar ou não o júri popular em caso que tenham dúvidas, mais de um juiz a decidirem sobre culpabilidade, etc…) Tentar eliminar os erros humanos é impossível, claro, mas abandonar a tentativa de eliminar esses erros é estagnar, é vê-los nunca diminuir. Se ninguém criticar, nada melhora.

      Voltando aos objetivos da série… Vamos aumentar… Provar que o pensamento “chapa-branca” que vê mil maravilhas no mar de merda, com o meritôso medo de perder o que já se conquistou, é, isoladamente, um dos problemas do futuro que não chega.

      • fbarbuto disse:

        Canali,

        Tem tanta coisa errada, ultrapassada ou anacrônica que não conseguimos substituir… Uma delas é a prosaica prova. Prova mesmo, essa que estudantes do primeiro grau à pós-graduação fazem a granel enquanto estão na escola ou universidade. Quantas provas você já fez que não refletiam tudo o que você sabia? Muitas, certo? Quantas vezes algum chefe veio até minha mesa e disse “Olha, quero uma opinião a respeito disso aqui… em duas horas na minha mesa… E é bom que fique satisfatório, senão você está na rua. Ah! E sem consulta, entendido?”. Nunca na minha vida profissional. No entanto o antiquado (ou não será assim?) sistema de provas aí está até hoje e não há no horizonte nada em vista que possa substituí-lo. Mesmo sabendo que é falho, não se encontrou ainda nada melhor.

        Não sou jurista, mas creio que o sistema do juri popular é uma tentativa de deixar que o debate, a análise e o consenso substituam a opinião de uma única pessoa, ainda que uma opinião abalizada (de um juiz, no caso). Isso num mundo ideal, claro… Não é porque são 12 que o julgamento é infalível. É um sistema falho? Sim, é, como tudo o que é humano. Mas o que você sugere no lugar? Encontrar problemas é fácil, descobrir ou inventar soluções é que são elas… E quando o problema é enraizado nas nossas origens humanas (e portanto falhas), o bicho pega.

        Eu tenho comigo que há coisas que nunca conseguiremos mudar. Quando muito, aperfeiçoar.

        F.

      • João Canali disse:

        Fausto se pensássemos assim desde o início das civilizações não teríamos aperfeiçoado (o que em muitos casos é uma mudança, não vejo nenhuma contradição nos dois termos) nada. Não podemos iniciar nenhuma disputa ou competição achando que vamos perder ou sermos incapazes de superar os desafios, pedindo licença aqui para o lugar comum… Na verdade, o quanto desse desânimo não faz parte de um grande discurso que visa amarrar um mundinho que nos agrada (até por estarmos sempre certos com nossas críticas ou, quem sabe, por o manejarmos bem apesar dos pesares…), naquela de não querer mexer em time que está jogando mal, mas está ganhando?

        Você lembrou do ensino… Que é onde mais houve evolução, até porque é onde nasce as evoluções técnicas e científicas (pelo menos nos EUA em suas universidades, uma das poucas coisas que aparentemente ainda está funcionando ou não entrou em decadência…) e onde se concentra as melhores mentes, um verdadeiro refúgio para o que há de melhor na espécie… Lá não pensaram duas vezes em dar o tiro no próprio pé (o domínio do saber) enchendo as escolas e universidades de computadores…. Tudo bem que o currículo continue defasado e a mentalidade patriótica bobamente ufanista ainda subsista, assim como arcaísmos no intúito das provas… No ensino a coisa aconteceu por força da tecnologia. Basta lembrar que nesse período que examino, surgiu o Google e todas as salas de interação onde já formados puderam encontrar o ambiente educacional a que pertenceram nas universidades… Nunca se leu e escreveu tanto na história da humanidade e nunca se consultou tanto sobre todos os assuntos. Nunca houve tanto contato entre todas as tribos de crença e não crença… Como ainda não temos uma geração totalmente pós Google no poder é cedo para qualquer análise de qualidade, mas o ensino (o verdadeiro) já saiu da sala de aula há muito tempo, ele está em casa ou em qualquer lugar…

  3. Cesar Barroso disse:

    João,
    Não tem coragem nenhuma. Continuo a torcer pelo Brasil. Não vou sacrificar o meu amor pela seleção brasileira por causa de um grupelho de traíras, que, esses sim, torceram contra o Brasil na Copa.
    O que quero demonstrar é que às vésperas de Copa do Mundo, não se pode forçar um técnico vencedor, com uma equipe vencedora, meter no grupo dois garotos que estão jogando bem, mas não têm experiência internacional, podem amarelar(o doidinho não amarelou com um simples tapa?), e nunca jogaram com o resto da equipe.
    Até admito que o Galvão, o Renato e os seus ingênuos seguidores, tivessem opinião diferente, mas daí a destruir a figura de um homem vencedor, desestabilizar emocionalmente a seleção brasileira, jogar o treinador contra a multidão(que eles manipulam, sim!) é uma outra história. Não tenho e menor respeito por esse Galvão e esse Renato. Esses caras são saunguessugas que em troca de audiência sacrificaram a maior alegria dos brasileiros. São TRAIDORES.
    Se fosse na Coréia do Norte, eu iria, de pipoca e algodão doce, assistir esses dois traíras serem linchados em praça pública.

  4. Cesar Barroso disse:

    João,
    Para não perder sua amizade, retiro-me temporariamente de seu blog.
    Abraço,
    Cesar

  5. fbarbuto disse:

    Canali,

    Creio que não se trata de comodismo ou má-vontade em aperfeiçoar/mudar, até porque os sistemas de ensino, jurídico, etc, têm se aperfeiçoado na medida do possível com os avanços da tecnologia. Mas lá no fim do processo alguém humano vai ter que avaliar, julgar, pesar, dar a última palavra enfim em algum tipo de processo decisório. E aí não importa, falhas são inerentes a nossa natureza e ponto. Talvez no futuro entreguemos nosso poder de avaliar (isso sim, um comodismo total…) a máquinas que se conectariam ao cérebro de um estudante e de lá conseguiriam depreender o quanto aquele aluno conseguiu aprender de determinado assunto (criatividade, isto é, o que ele poderá ou não fazer com o que aprendeu, já é outro busílis). Ou retirar do cérebro de um O.J. Simpson (é só um exemplo…) as cenas da sua memória em que ele dá fim à vida da sua ex-esposa e o namorado desta. E aí teríamos certeza, bit a bit, que o sujeito é culpado ou inocente. Mas aí viria um advogado (muito provavelmente outra máquina, a de advogar) e diria “Peraí… essa máquina não funciona com esquizofrênicos, que imprimem em suas memórias fatos que nunca ocorreram, e meu cliente Ow Zay Zimpzon (Nota: a máquina é fabricada na China, como tudo será daqui a algumas décadas, e portanto guarda o leve sotaque de seus criadores) tem traços definitiva e comprovadamente (por uma máquina médica, decerto) esquizos… Julgamento inválido, bzzt.” Como máquinas, também serão falíveis como seus criadores? Ou serão infalíveis a menos que seus desenvolvedores assim o desejem através de uma falha programaticamente inserida em seus chips? Lembra-te que o interesse particular de pessoas ou grupos de pessoas sempre irá existir… senão não seremos mais humanos. Nossa mentalidade pode até mudar, evoluir, mas certos elementos básicos de nossa software continuarão lá em camadas “não-reprogramáveis” da nossa mente.

    Confesso que me senti ridículo escrevendo o parágrafo de sci-fi mambembe acima, mas como você gosta de elocubrar… entrei no teu mood

    Quando a coisa não é determinística, fica complicado… Pode ser que o atual sistema de tribunal do juri seja cômodo ou até conveniente ($$$) para advogados e juízes, mas sem dúvida às vezes o é para o réu também, especialmente aquele que consegue pagar um bom causídico e com isto pegar pena mínima com benefícios, ou mesmo pena nenhuma (vide Brasil)… O “fator humano” não somente é certeza de falha; ele também tem o DNA da perpetuação, como a bactéria burra que mata seu hospedeiro ao invés de conviver em simbiose com ele, assim selando sua própria sorte também. Somos bactérias de nós mesmos, e isso talvez jamais mude…

    F.

    • João Canali disse:

      Excelente comentário Fausto, na verdade você acabou indo de encontro a proposta da série, como aliás foi sua tentativa inicial.

      Você foi para o futuro usando uma rampa e o futuro se vai através de uma escada. Eu coloquei um degrau para trabalharmos, esses aproximados 16 anos que estou nos EUA. A proposta seria a de verificarmos o que está defasado após esse período testemunhal, o que está incoerente com os demais avanços obtidos e de quebra, nos comentários, darmos uma espiadinha nos próximos degraus, suas viabilidades e impedimentos. No próximo capitulo, pegarei um tema onde temos uma baita sci-fi já totalmente possível em termos técnicos que revolucionaria tudo, inclusive o atual defasado modelo judicial e suas patentes injustiças (quando bastaria lembrar que o grande traficante, por exemplo, pega uma pena menor que o traficante novato ou de primeira vez, só porque, pela lógica, possui o dinheiro necessário para pagar o melhor advogado, o que conhece mais as leis e joga golfe com os juízes… e por aí vai…).

      Mas, como você cutucou minhas elucubrações, lhe adianto que quando penso no futuro de verdade, do tipo sci-fi, eu parto logo para pensar nos problemas de uma sociedade de imortais, de gente que controlou a velhice… onde tudo passa a ser consequente… onde não existe mais uma nova geração de pessoas, mas uma nova geração de conhecimentos adquiridos e perenes… os problemas inerentes ao “storage” de tantas informações dentro da memória humana que acaba morrendo dentro de si mesma em pequenos e grandes esquecimentos… quando se aceita que o aparato intelectual é uma parasita de um mecanismo biológico… quando o aparato intelectual poderá estar em simbiose com um aparato mecânico… quando o aparato intelectual for reconhecido como uma vida independente dos atributos físicos… e todo um novo quadro de ética quando os deuses estiverem finalmente mortos e enterrados… haja autores para burilar tudo isso… fiquemos apenas com as constatações do degrau que estabeleci, pelo menos dessa vez.

      • fbarbuto disse:

        Canali,

        Ok-dok! Vou procurar me manter nos degraus ao invés de subir a rampa… Mas já lembrando que você pela escada geralmente vai mais rápido do que eu pela rampa, talvez porque nessas discussões eu me locomova com uma fictícia cadeira de rodas. 😉 O blog é teu, é você quem dá o tom; eu apenas tento acompanhar a música. Desculpe se à vezes desafino.

        Parece que seremos só nós dois aqui discutindo por algum tempo, a menos que o Max e o Evandro venham ocasionalmente nos brindar com suas luzes. Vamos ver no que vai dar.

        F.

      • João Canali disse:

        Fausto, me sinto um privegiado de contar com você e todos os que colaboraram com o Blog Teorias com seus comentários até o momento. Se você desafina o faz como o João Gilberto cantando Desafinado. 😉

      • fbarbuto disse:

        Canali,

        Acho que já comentei sobre isso aqui, mas creio que uma sociedade de imortais no sentido estrito da palavra é não somente impossível, mas também inviável. Para começar, continuaremos sujeitos aos acidentes fatais do dia-a-dia. Sem reposição, ou sem uma reposição programada, as vítimas deste acidente deixarão lacunas na sociedade que não poderão ser preenchidas. O advogado, o médico, o mecânico, etc, que morrerem num acidente destes não encontrará substituto no grupo social em que vive. Alguém terá que acumular suas funções, o que é possível e até funcional — mas só até certo ponto porque o dia continuará tendo 24 horas e numa sociedade orientada ao lazer e ao ócio (não há sentido em viver pra sempre para trabalhar eternamente; isso seria o inferno) quem vai querer absorver a carga de trabalho deixada por um imortal pero no mucho?

        Vamos ter que aprender a fabricar órgãos humanos para reposição. Para o acidentado que precisar de uma nova córnea, o pinguço que necessita trocar o fígado bombardeado pelos sete costados, etc. Porque doador não vai haver. Células-tronco? Bom… é justo/ético/humano encorajarmos (ou forçarmos) mulheres a engravidar para retirar delas os embriões que contêm tais células? Aliás, teremos mulheres o suficiente para isto? Pelo sim, pelo não, precisaremos de alguma forma desarmar o relógio biológico delas, para que possam engravidar aos, digamos, 350 anos de idade no caso de alguma emergência em termos de controle populacional. Vai que. Por falar em crianças, nascimentos só aqueles programados ou previamente autorizados pelo Grande Irmão. Caso contrário, voltaremos a ficar como estamos hoje: a caminho da superpopulação mundial. Porque você sabe, superpopulação ocorre quando nasce mais gente do que morre; e quando não morre ninguém… É justo negar às pessoas direito de ter filhos? Vamos desarmar o instinto maternal também? É possível se imaginar uma sociedade sem crianças? Como serão selecionados os happy few a quem será dado o direito de se reproduzir? Serão os mais belos? Os mais saudáveis? Aliás, existirão os mais belos e/ou os mais saudáveis? É justo forçar os mais feios (feiúra é critério comparativa, lembre-se…) a serem imortais? Nesse mundo maluco, você vislumbra a possibilidade de cada um optar por não viver eternamente? Como será vista a pessoa que optar pela própria finitude? Um pária que quer abandonar sua função na sociedade? Um estraga-prazeres que quer deixar a rave dos matusaléns no melhor da festa? Um louco que deve ser internado e “reprogramado”, na visão dos tarados por imortalidade de então?

        Do ponto de vista dos costumes sociais, vai ser a sociedade do swing ou simplesmente do nosso tão pindorâmico “ninguém é de ninguém”. Vais aguentar ficar casado com a mesma mulher por, digamos, 750 anos? Isso são “Bodas de Kryptonita”, nem o Super-Homem aguenta… 😉 Uma eventual escapadela sexual consentida com uma camareira de hotel (uma jeitosinha e jovem, digamos uns 200 anos de idade…) durante alguma viagem de negócios sem a dona patroa pode promover um certo alívio, mas haja viagens pela eternidade para te garantir a excitante novidade de um relacionamento fugaz. E isso vale para ela também, não sejamos machistas… Sempre o mesmo homem? Corta essa, ela vai querer escutar um ronco diferente de vez em quando, just for a change, que ela também é humana. Vamos ter que mudar nossa cabeça e o jeito de ver o mundo. Neste cenário, todas mulheres serão ou estarão disponíveis para todos os homens, e vice-versa. Claro, ninguém será obrigado a isto, mas a tendência aponta nesta direção.

        Vai ser um mundo muito complicado. O melhor seria equilibrarmos a nossa população a um nível adequado (entre 2 e 3 bilhões de pessoas) e a partir daí tocarmos nosso planetinha azul pra frente. Com a renovação do material humano da forma que a conhecemos hoje: pelo nascimento e morte dos seus membros.

        F.

      • João Canali disse:

        Fausto, dá para responder ponto a ponto todas as suas indagações usando de imaginação e suposições, mas acredito ser mais esclarecedor alinhavar algumas visões gerais inerentes ao próprio tema.

        Não há escolha, a humanidade sempre se dirigiu para a conquista da imortalidade, sua primeira invenção de peso (e que possibilitou as civilizações mais complexas do que uma reunião em torno da fogueira) foi imaginar ficcionalmente que haveria uma vida inteligente e invisível que sobreviria após a morte física (que eles viam todo dia acontecer). Essa invenção (do espírito invisível e pensante… em outras palavras: vivos) está presente em todas as culturas humanas conhecidas de forma tosca ou complexa (o que não quer dizer que dentro das culturas não tenha surgido crenças ou idéias discordantes, afinal estou aqui… mas nunca foram majoritárias… ou de base nativa a toda uma cultura…). Cientificamente, já sabemos que é possível manipular o DNA e suas armações biológicas e órgãos inteiros poderão ser construídos (diversos experimentos nesse sentido encontram-se em desenvolvimento… não sei como você não lembrou-se disso) e tudo é realmente uma questão de tempo para a inibição da velhice no próprio código e mesmo de poder fazê-la retroceder. Obviamente, que não haverá imortalidade do tipo da do super-homem, com direito a invulnerabilidade… O importante é saber que o homem vai tentar ser “eterno enquanto durar” ;-). O instinto de sobrevivência está escrito em algum DNA… E pode até ser que, ironicamente, morra, tentando… Não haverá arrazoado algum como o que você levantou, que impedirá essa tentativa… que luta, na verdade, contra os diversos perigos de fim de mundo… entre os quais, paradoxalmente, a superpopulação… A grande ironia… cada vez mais que nos dirigirmos em direção a não morte é deixarmos de rastro a cura de doenças que fomentam a superpopulação que ameaça nos devolver a barbárie… escorregar para a base da montanha novamente… onde morreremos mais, ao invés de nos tornarmos virtualmente imortais.

        Muitos que desconfiam ou tem certeza (o que seria o mais apropriado no momento) que ficarão de fora do dia em que isso ocorrer, torcem contra, desdenham da possibilidade ou tentam mesmo acreditar que isso é impossível… Evitando um bom debate, como você está propondo.

        Fausto, pequenas diferenças geográficas e mesmo climáticas, criaram grandes diferenças culturais… Deixarmos de morrer significaria uma radical mudança cultural… Fim de todas as religiões organizadas e surgimento de éticas novas as quais só mesmo no campo da ficção-científica poderíamos supor… Os seres humanos, ao invés de legarem às próximas gerações os conhecimentos acumulados durante toda uma vida, seguiriam em frente acrescentando, aprimorando e aperfeiçoando suas experiências… Poderiam até fazer o mais difícil que é mudar de idéia… Quantos não mudam de idéia por acharem que é melhor morrer pensando de uma determinada maneira, já que vão morrer de qualquer forma, apagando a comprovação de um possível erro. No novo quadro a vida passaria a ter significado!!! A morte anula os significados da vida, mascaramos essa obviedade a milênios com as idéias místicas que sempre “encontram” um significado para a vida ou as filosóficas que, refinadamente, tentam mostrar que a vida é “it self” esse caminho de busca de encontrar significado. O controle da velhice significaria o fim dessa tralha ilusória que serve no momento a todos nós. Tudo teria conseqüência real, todos os nossos atos e ações importariam, fariam sentido e se consubstanciariam no nosso futuro… ou melhor, o futuro existira ou, pelo menos, seria provável de ser vivido. Portanto, claro, com uma nova cultura escrita e reescrita em função da mutabilidade de novos conhecimentos e inventos tecnológicos, novos valores e comportamentos se desenhariam se valendo de nossa flexibilidade mental, que podemos verificar hoje mesmo nas mais diversas culturas que possuímos. Eu apostaria em uma sociedade onde os fatos fossem discutidos em conjunto, não faria mais sentido o jogo de esconde-esconde que acalentamos a milênios, as coisa poderiam ser racionais ou assumidamente deixadas irracionais com o conhecimento de todos… O tradicional perde e ganha ganharia rounds infinitos, as derrotas não seriam definitivas… Ser pobre ou rico não faria mais sentido, todos poderiam ser uma coisa ou outra no presente ou no futuro… Máquinas e andróides seriam os escravos das tarefas indesejadas, tá mais ou menos na cara… Tudo acabaria se ajeitando, até mesmo a vontade de quem não queira mais viver… muito embora eu suspeite que o caso deles seria conhecido a tal ponto por toda a sociedade que seriam muito poucos a buscar essa opção… Será que as crianças teriam tanto valor assim nessa nova cultura? Não poderiam ser os novos “replacements” sociais cuidados pela comunidade, dispensando-se a coisa familiar que basicamente surgiu em função de necessidades de sobrevivência que seriam irrelevantes… Ah isso é parte inerente do bicho homem… Será? E aqueles que saem diretamente dos orfanatos para a vida? E as culturas que procederam dessa forma, com verdadeiras criações tribais?

        Concluindo, sairia tanta coisa interessante dessa nova cultura que ela em si mesma é mais importante (sob o ponto de vista do conhecimento ou da curiosidade, se preferires) que o fato do bicho homem deixar de morrer de causas naturais. E toda essas mudanças seriam sentidas ao decorrer das nossas próprias vidas, assim como mudamos de preconceitos ao longo dessa nossa vida ainda limitada.

  6. fbarbuto disse:

    Canali,

    Não questiono o desejo do homem em viver mais, quanto mais melhor, nem nossos desejos de imortalidade a qualquer custo nem que isso represente a criação de mitologias e crenças sem nenhuma base, uma pagação de mico intelectual das maiores. Também não discuto que a C&T estão nos empurrando neste sentido (outro dia escutei na TV que o ser humano que vai viver 150 anos naturalmente — tal como hoje se vive até os 80 sem surpresas — já nasceu, já está entre nós, pode ser mesmo o bebê do teu vizinho). O que questiono é a chance desse modelo baseado em imortais dar certo, pelos motivos que expus. É enorme a quantidade de pontas a serem amarradas, de nós a serem desfeitos, de superfícies rugosas a serem aplainadas. Eu pensei em algumas. Você apresentou soluções mais ou menos tautológicas (invenções a serem desenvolvidas para suportar um estilo de vida que igualmente ainda não existe) para o problema que a imortalidade representará. Tudo é válido, afinal estamos discutindo em cima de hipóteses, mas parece que eu não atingi meu objetivo contigo nem você comigo… Coisas de um debate que parece estar ainda bem no início.

    Por fim, você esquece que a imortalidade estaria capando (literalmente…) aquilo que foi o mais crucial para o desenvolvimento da nossa espécie: a sua renovação. Um mundo de imortais egoístas jamais abrirá chance para o nascimento de um novo Einstein e também não evoluirá, nem geneticamente nem tecnologicamente (“se já sou imortal e tenho tudo o que quero, pra que mexer nesse time que está ganhando de goleada”?). Outro ponto a ser considerado.

    F.

    • João Canali disse:

      Brilhante a sua objeção… Deixe-me repetí-la:

      “Por fim, você esquece que a imortalidade estaria capando (literalmente…) aquilo que foi o mais crucial para o desenvolvimento da nossa espécie: a sua renovação. Um mundo de imortais egoístas jamais abrirá chance para o nascimento de um novo Einstein e também não evoluirá, nem geneticamente nem tecnologicamente (“se já sou imortal e tenho tudo o que quero, pra que mexer nesse time que está ganhando de goleada”?). Outro ponto a ser considerado.”

      Não tiro uma vírgula de sua observação… Ela exemplifica o que falei sobre a mudança da perspectiva cultural. Haverá outros valores a serem considerados, não esses que você explicitou. Você enxerga esse outro mundo (onde o envelhecimento está contido) com os valores da nossa “cultura morte-certa” onde o futuro será construído por outros e não por nós mesmos. Por que você acha que tem que haver uma renovação? Está só se faz necessária quando o que se tem no presente não está funcionando bem. Estamos igualmente dentro de uma cultura desenvolvimentista, que nos faz crer nisso o tempo todo, afinal o maquinário precisa de renovação porque entropicamente as peças se desgastarão, precisam ser “renovadas” para que continue funcionando. Maquinário ou corpos, dá na mesma… nesse caso. Estamos em uma cultura (econômica inclusive e… Pausa para lembrar… como o nosso papo aqui é atual… não sei se estas se dando conta…) expansionista onde tudo cresce sem parar para atender o crescimento populacional… tipo bola de neve… Renovação significa produzir mais, um imperativo… Nossa cultura reflete isso… Mas tem mais reflexões aí também… Dirigismo, planificação… Estamos em uma cultura que se comporta de forma criacionista, como se existisse um plano “secreto” que dê sentido as nossas existências e é claro que você irá se preocupar com renovações, pois está tudo errado em sua volta, principalmente, porque você sabe que assistirá o fim do filme no momento de sua morte, a vida atual não é um seriado bem sucedido que volta temporada após temporada… Entraríamos em uma cultura de manutenção, não de necessárias renovações para atender o “plano divino” ou proto-símios furnicadores…

      Mas… Digamos que esse traço expansionista seja levado a nova cultura através da curiosidade intelectual e até mesmo do tédio… ou ainda… Por uma questão de prevenção contra a estagnação (não nos esqueçamos que nunca seremos invulneráveis… sempre estaremos a mercê das forças e desígnios casuísticos do universo… que a natureza física do universo sempre apresentará novos desafios…) Você fala da possibilidade de uma estagnação da evolução do ser biológico se esquecendo que o ser intelectual já pode ter sido alcançado… O símio mortal ou imortal só está servindo de suporte ao parasita intelectual… Por maior que seja a simbiose com o corpo físico, por mais que possamos imaginar um processamento mais rápido dos pensamentos através de outro acidente mutacional (Não podemos perder de vista que nossas capacidades intelectuais são puro acidente no processo da seleção das espécies, nada foi provocado ou era totalmente necessário do ponto de vista da sobrevivência mecânica da espécie anterior… aconteceu.) isso não significa que seja necessário evoluirmos biologicamente… podemos alcançar o mesmo grau de conhecimento gerado por Einstains (poderíamos até cloná-lo a título de experiência, se fosse o caso, há um celebro dele em formol…) em um passo mais lento ou mesmo através de inteligência artificial (e não venha me falar que o robô ou o andróide vai nos superar e nos aniquilar por sermos supérfluos, filmes e livros de Sci-fi continuarão sendo vistos e lidos no futuro… 😉 O que quero dizer é que nada nos prova que nosso conhecimento intelectual (o que de fato interessa) não possa continuar evoluindo ou que já tenha chegado a um ponto máximo de possível desenvolvimento sem que não se transforme em outra espécie… E qual compromisso nós temos com o surgimento de outras espécies (retornando aqui a visão cultural atual que nos transforma em anjos/escravos da criação e seus desígnios)? Não haverá esse questionamento ético. Estaremos perpetuando um ser intelectual capaz de evoluir através do universo… Sim claro Fausto… Você me provocou… Nosso destino são as estrelas, só a curiosidade saciará nossa existência intelectual… Por favor, não lembre daquele conto do Isaac Asimov… do tempo que os computadores se chamavam de celebro eletrônico Univac e coisa e tal… Fiat Lux… 😉

      Por último você lembrou da evolução da espécie lembrando de Einstains…Vale lembrar que Seu Gaguinho (Charles Darwin), já provou muito mais suas teorias do que aquele… Se esquecendo totalmente dos princípios da evolução… Nesse exato momento, por exemplo, se fossemos um grupo de aproximadamente 300 símios pelados em um pequeno asteróide com poucos recursos além de atmosfera e outros suportes a vida humana, a evolução não seria para Einstains, outro sim, para algum ser intelectualmente inferior (para não gastar com maior rapidez os poucos recursos do asteróide inventando tecnologias), capaz de lidar melhor com a escassez reinante, tendo maior capacidade/resistência de beber a própria urina, tendo menos necessidade de proteínas, etc… Portanto, a sua preocupação com a evolução é pura curiosidade (de ver como seria uma espécie mais inteligente, quem sabe…), parabéns, por isso a considerei brilhante. Tautologicamente, reintero pleonasticamente mais uma vez, a curiosidade é que nos dá sentido. 😉

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