Enquanto Esperamos a Chegada da Razão…

Ilustração do Politicamente Correto - Charada para Brasileiros

Sou partidário do ponto de vista que esse é o momento histórico de discutirmos todas as nossas pendência “filo-culturais”. Já há suficiente informação na praça para nos certificar que somos um animal pensante (o único, até provem o contrário) fruto de um desses acidentes mutacionais da seleção das espécies e que carrega o fardo de não ter um parâmetro natural ou artificial para se nortear… Ponto aqui para clarear essa afirmação…

Tentem se imaginar como um primata em seu respectivo bando, a coisa mais próxima que temos como parâmetro natural… De certo temos alguns pontos em comum, temos que nos manter vivos… Nos alimentando, enfrentando ou fugindo de perigos e “pensando” o tempo todo em fornicar… Poderíamos dizer que o resto é detalhe, se não fosse esse negócio de pensar, de sermos capazes de falar sem emitir sons para nós mesmos, organizar racionalmente os fatos, interagir, simbolizar, aprender, construir coisas que nos ajudam de diversas maneiras a cumprir com nossas necessidades básicas, inventar saídas para o nosso conhecimento da morte e nossa ignorância quanto ao sentido da existência do universo ou de nós mesmos… Portanto, aquelas semelhanças que pareciam ser simples a princípio se transformam em ultra complexas diferenças, só pelo fato de sermos capazes de falar “mamãe”… Ah, temos também as formigas e as abelhas como parâmetro de vida em sociedade… O único problema é que uma sociedade onde seus elementos constituintes já nascem com uma profissão ditada pelo DNA e ainda por cima com emprego garantido (caso contrário não teriam sido “fabricados”) vai dar certo sempre… Uma covardia nos comparar com esses insetos e suas sociedades, nosso problema é muito maior. Outro fato agravante em relação ao homem e a natureza é que não nos enquadramos a nenhum ecosistema, isto é, imaginando nossos bandos mais primitivos, quando a caça ou pesca em determinada região fica escassa, partimos para outra… Vamos exterminando tudo que vemos pela frente dando carteirada de sobrevivente, de ser superior e protegido pela vontade de deuses… O mesmo se passa em relação a sociedades eminentemente agrícolas, a terra sempre cansa e novas áreas somos obrigados a plantar… Até porque quando habitamos uma região rica em alimentos, nosso crescimento populacional aumenta… junto com o consumo dos recursos da mesma região… Não temos regras demográficas naturais impostas por nosso DNA e nosso maior predador somos nós mesmos e os seres invisíveis, o que tem salvo de nós os demais seres vivos do planeta são nossas guerras e as epidemias.

Se no parâmetro natural não temos nada a buscar em função de nossa grande diferença (pensar), no parâmetro artificial muito menos… Não é necessário se ter um grande conhecimento da história humana para verificarmos que nunca conseguimos edificar uma sociedade feliz capaz de evoluir a mutação, sem que isso não fosse as custas de oprimir outro grupo humano ou estar isolada de outros povos acreditando em alguma besteira mística…

Calma… Nem tudo é ruim com essa coisa de pensar… Através do pensamento desenvolvemos tecnologias que poderão até, um belo dia, salvar o planeta, ou melhor, os demais descendentes daquele acidente primordial que ninguém ainda conseguiu reproduzir em laboratório e que formou a primeira célula capaz de se copiar dentro de uma sopa de compostos químicos a uns poucos bilhões de anos atrás (não se sabe ainda se no do mar, na terra ou trazida por engano no rabo de um cometa)… Poderemos um dia deixar o planeta para levar esse nosso problema genocida para o resto do universo. Ou… Podemos construir com tecnologia uma sociedade imortal que produza alimentos a partir de elementos inorgânicos!!! Sem termos que continuar destruindo outras vidas como estamos fazendo a uns duzentos mil anos aproximadamente, desde do dia que nasceu aquele proto-homem que se deu conta que era muito mais esperto que os demais membros do bando onde nascera e, sendo assim, tirou a única vantagem possível, passar nos pêlos todas as fêmeas de sua espécie que lhe passassem pela frente (provavelmente a mãe, irmãs e filhas também), garantindo assim que sua esquisita mutação (articular memórias recentes e antigas, raciocinar, pensar…) se perpetuasse e chegasse hereditariamente até os nossos dias.

Já que sabemos disso tudo, como observei de início, temos que por interesse próprio… Não. Por diversão, por falta melhor do que fazer, por desafio intelectual… Como falar de “interesse próprio” lidando com os desígnios culturais do porvir, carregando ainda o fardo da mortalidade? Bom, pode ser que exista um instinto de luta, um atavismo qualquer que nos faça lutar inconscientemente pela sobrevivência em todas as suas esferas, mesmo sem a necessidade de um comando cultural para isso. Voltando… temos que discutir a relação com a cultura global que se está formando. Não podemos deixar que um perfil estagnante domine o que será um pensamento único (os costumes e crenças da cultura única), chega de mitologias.

Temos no momento uma polêmica muito interessante que está no cerne cultural. Diversos autores famosos do passado utilizaram termos que hoje estão em desuso por ofenderem grupos que hoje possuem status sociais diferentes na sociedade contemporânea. Temos nessa matéria o caso de Mark Twain que lembra o caso do nosso Monteiro Lobato. Ambos se referiram a elementos afro-descendentes de suas histórias – como era admissível pela sociedade em que viveram e para qual escreveram seus livros – de forma digamos, ofensiva para os padrões de educação politicamente correta atual.

Existem dois pontos de vista nessa situação que nos levam a um verdadeiro impasse… Claro que sempre poderemos “desligar o rádio”(*) e pensar que se trata de uma situação menor, que o Obama na presidência já é prova mais do que suficiente que as coisas em relação aos negros mudou ou está na reta final para mudar… ou ainda que é melhor nem tocar no assunto para que não inventem mais alguma cota racial ou o risco do ódio racial ser reativado entre ambos os lados por conta desses polidos exageros de tentar reparar o que aconteceu como máscara de interesses oportunistas… Mas, e se os padres implicarem com livros que contem a atuação da Igreja na Inquisição ou sua omissão na escravatura? Alguém acha que eles, nos colégios e universidades que gerenciam, permitem um completo ensinamento dos séculos de atraso e sofrimento que impuseram a humanidade? E os revisionistas, que negam o holocausto, ou Hollywood que não que perder o filão e choraminga política? Se não burilarmos o passado poderemos contribuir para a perpetuação de centenárias mentiras, se mexermos no passado editando as palavras originais de autores consagrados estaremos ocultando o entendimento do que ocorreu no passado com todos os seus possíveis erros e acertos… Se não olharmos para o passado repetiremos seus erros… Mas… Por que negar a um jovem negro o conhecimento sem traumas das aventuras narradas por grandes autores? Ao privá-los de um acesso sem traumas ao melhor do pensamento humano, ou deixarmos a impressão (falsa) que aquele pensamento é exclusivo de brancos (uma besteira fácil de ser vendida e que sujeita a tola busca de um pensamento negro proveniente de um continente que a seu sul pouco produziu… por outras razões…), estaremos contribuindo para a existência de um grupo revoltado e não integrado… Por outro lado, não é saudável ensinar-se o desprezo racial a jovens brancos que leiam tão atraentes estórias… E se é o “mocinho” que trata outros seres humanos com desconsideração… Tudo que não precisamos em um cultura global é a crença de que o acidente mutacional não ocorreu para todos de modo igual, não importando as diferenças na pintura da carroceria… Todavia… Quando é que deu certo a educação que oculta ao invés de esclarecer? Criar o proibido através da censura é o mesmo incentiva-lo, reflexo condicionado desde a primeira guloseima proibida antes da janta…

Em minha opinião, o mais importante é mantermos vivo o debate suscitados pelos impasses. Temos que incorporar na cultura global o conhecimento que o impasse existe e é a melhor expressão desse acidente mutacional que carregamos na cabeça. Muitas vezes há duas razões que empatam em veracidade, mesmo apontando em direções opostas. A nova cultura que temos que moldar sem parâmetros, apenas com a certeza que queremos ser felizes, pode incorporar a aceitação do fato que existem impasses eternos, dois caminhos que levam ao mesmo lugar…

(*) Referente àquele soldado que de cuecas escuta o Hino Nacional no radio de seu quarto em sua casa… Como todo militar, possui a ordem de se perfilar e bater continência durante a execução do hino… Só que naqueles trajes foi algo desrespeitoso e constrangedor… O personagem de volta ao quartel pergunta ao seu sargento o que deveria ter feito e esse, por sua vez, manda perguntar ao tenente, que manda perguntar… até chegar ao general… Ninguém soube responder… Descontente o soldado, de puro deboche, pergunta ao mendigo do lado de fora do quartel o que deveria ter feito… E este respondeu: “Todo militar é burro se não fossem assim você teria desligado o radio para acabar com o problema…”

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
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2 respostas para Enquanto Esperamos a Chegada da Razão…

  1. evandro barreto disse:

    João,
    Você fez uma reflexão tão abrangente que este post poderia se chamar Forum de um Homem Só.
    Brilhante e estimulante. Tentarei comentar deixando que o encadeamento das idéias também se faça por livre associação, sem rigor acadêmico. Eu confesso que desde que comecei a pensar por minha conta sempre tive um certo temor do Advento da Razão, mais por instinto do que pelo uso da própria razão. Sem o contrapeso de Pascal, Descartes me dá urticária, como se a gente tentasse entender o porco como um todo a partir da feijoada. Você falou em abelhas e formigas e me lembrei de Pierre Teillard de Chardin em “O Fenômeno Humano”. Segundo ele, os insetos desenvolveram uma forma tão eficiente de existência que até seus esqueletos se formam do lado externo para melhor proteção dos órgãos mais sensíveis. O problema é que toda agressão é também um desafio. E a busca da resposta adequada é uma ferramenta da evolução. Excessivamente protegidas contra os ataques/estímulos externos, formigas e abelhas simplesmente pararam de evoluir muito antes do surgimento dos primatas, grupo do qual fazemos parte como a espécie mais indefesa em termos de layout original. Por sermos fracos de corpo, desenvolvemos a mente que criou utensílios. E aqui estamos nós, predadores inclusives de nós mesmos e do ambiente que nos sustenta, na busca incessante de respostas para os problemas que nós mesmos criamos. Onde isso vai nos levar? Graças aos deuses da perplexidade criativa, não tenho a menor certeza. Mas acho que a idéia geral é para frente e para cima, num percurso em espiral, que parece nos fazer caminhar em círculos, mas onde cada volta perseguindo o próprio rabo se faz num plano ligeiramente mais alto do que na volta anterior. Penso, logo existo, mas só existir não me basta.
    Abraço e boa páscoa, que é a forma romantizada de desejar boa travessia.

    • João Canali disse:

      Obrigado Dodô,

      Claro que temos medo da razão, até porque ela nos trás outra coisa perigosíssima de se lidar, a certeza. Será a razão algo apenas de uso pessoal ou ela é a prova dos outros?

      Mas é necessário um kit de sobrevivência nessa aventura… Eu sugiro aprendermos balonismo… Tem cada extravagância nesse mundo!!! Eu estava lendo numa Popular Mechanics um artigo sobre um acidente em uma competição de balões a hidrogênio, onde morreram dois balonistas durante uma competição na Europa… Um casal que não era casado, ele, um italiano em torno dos 40 e ela uma americana de 65! Ele, pelo que pude entender, alguém que vivia daquele esporte de abastados, já pertencendo a uma tradicional família de balonistas e ela dona de uma clínica de exames radiológicos de Bostom. A exclusiva competição consistia em se lançar aos ares de uma região da França e ir o mais longe que puder… Isso mesmo, ganha a competição quem mais longe for, não importa em que tempo ou direção… Aliás, nessa competição, quem ganhou foram os balonistas que chegaram em um ponto lá da Croacia… Passada essa estranhesa de vermos pessoas, em meio a esse mundo instável em que vivemos, aparentemente totalmente alheias as grandes preocupações sociais que aflingem a maioria das pessoas (eu acho que isso que é ter grana de verdade…), vem as informações de como dirigem a coisa, isto é, os baloões. Antes, é bom esclarecer que possuem tudo quanto é equipamento moderno de comunicação e posicionamento como o GPS e transponders que indicam aos outros (equipes de resgate) onde estão… Mas, a tarefa de dirigir o balão é de uma simplicidade franciscana… Dependendo da altura a qual o balão se encontra, o vento assopra para diferentes direções cardiais e o balonista tem que identificar qual é a direção que lhe convém e manter aquela altitude… Aí é que está… Para manter determinada altitude, deve liberar o gás do balão e parar de subir ou descer… Se exagerou naquela liberação e desce mais do que deseja, solta pesos para compensar… Vai nisso até que não seja mais possível liberar gases ou que os pesos tenham acabado. O acidente? Eles não sabem o que aconteceu, suspeitam de raios… O negócio é de um perigo suicida!

      Eu encontro muitas analogias nessa coisa do balão (aqueles balões que esquentam o ar não precisam de contra peso, basta deixar esfriar ou esquentar o ar dentro do balão para subir ou descer, até o acetileno acabar… no outro, à hidrogênio, você não é obrigado a descer em determinado momento, basta deixar o vento levar enquanto levar… ou até explodir…;-) e a coisa de pensar sobre a razão… Para se ir em busca da cognição pura a arte do balonismo, me parece, vem a calhar… em terra firme espero… 😉 A cada altitude uma visão diferente de acordo com os ventos que lá sopram. Como você bem diz, não dá para conhecer o porco todo pela feijoada, mesmo considerando que o quase as vezes interessa também.

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