Sharia ou não Charia? Eis a Questão.

Em sua histórica compilação de lendas populares, Mateus colocou na boca de seu principal personagem uma frase que definiu todo o caráter da civilização ocidental: “Dai a César o que é de César”. Sem muitos floreios, simbolizou o reconhecimento de uma das maiores conquistas da civilização que dominava o mundo conhecido naqueles dias, uma divisão entre as leis do estado e as leis provenientes do mundo místico. Visto de outro modo, essa herança greco-romana, significou também que os elementos da civilização judaico-cristã, que nascia ali nos escritos de Mateus, estavam livres para separar os dois mundo e até mesmo duvidar, em termos de coerência, da droga psicosocial representada pelas religiões, mesmo considerando-se que nunca tenham deixado de toma-la em doses maiores ou menores ao longo da história. Essa separação laica talvez tenha sido o fator que possibilitou todo o conhecimento científico acumulado por esse grupo, sempre em constante estado de mutação ou evolução cultural.

Existe outra palavra ausente em nosso vocabulário do dia a dia, além daquela que designaria um sonho bom, já que existe a palavra “pesadelo” para designar um sonho mau. Deveria haver uma palavra que designasse uma coisa que é certa e errada ao mesmo tempo. As palavras “paradoxo” e “contraditório”, as mais fortes candidatas, não possuem força suficiente para expressar essa condição dualista. Talvez isso seja um reflexo de nosso maniqueísmo cultural que sempre se esquece da relatividade das coisas, da existência de uma visão neutra ou apartidária. O exemplo mais notório que conheço de uma coisa que é certa e errada ao mesmo tempo encontro em algumas sociedades que compõe o chamado mundo islâmico e é designada por Sharia ou Charia, no aportuguesamento.

Ora, se de fato alguém acredita nos pressupostos de uma religião é mais do que natural que leve uma vida de acordo com o exigido por essa crença, seja ela qual for. Embora, particularmente, condene a necessidade atual de um sistema místico, o que é facilitado por minha condição atéia de analista da situação, para a manutenção de uma sociedade; que ache que o uso do conhecimento acumulado até aqui pode fazer frente aos dramas de falta de significado de uma vida finita, sou obrigado a admitir que é, até certo ponto, compreensível que as religiões existam. Se elas hoje representam uma fraqueza cognitiva, por outro lado, os sistemas regulatórios de comportamento que trouxeram foram responsáveis pelas atuais civilizações… O ateísmo só foi possível com o advento da ciência que só nasceu em virtude de sociedades que foram intrinsecamente organizadas a partir de sistemas místicos religiosos. Sob o ponto de vista da razão pura e simples, a partir do momento que a hipnose cultural cria uma crença mística nas pessoas, ninguém pode reprovar ou achar errado que aqueles elementos assim aculturados decidam obedecer ou viver segundo essas crenças, como é prescrito pela Sharia, por exemplo.

Mas, então qual seria o lado errado da Sharia? Obvio, a pretensão de administrarem uma sociedade sob a ótica necessariamente falaciosa de uma religião. Tautologicamente, ser o que são. Quando isso é posto em prática todo e qualquer sistema evolutivo de costumes é impedido, pois a crítica que provoca mudanças é tratada como uma infidelidade a coisa mística. Maias e Egípcios padeceram do mesmo mal, apesar de possuidores de tecnologias notáveis para sua época em comparação com outros povos do mesmo período, sucumbiram justamente na engenharia social, se autodestruiram ou se enfraqueceram a ponto de serem dominados por povos tecnologicamente não tão evoluídos. A idéia de um deus único, surgida entre os egípcios, foi justamente como uma tentativa de quebrar o domínio religioso dos sacerdotes, Amenhotep IV, vulgo Akenaton queria apenas ser um Mubarak, poderíamos brincar.

Muçulmanos se dividem em dois grupos principais Sunitas e Xiitas. A forma como Sunitas lidam com a sharia é interpretativa, ou seja, não é ao pé-da-letra. Os sunitas são uma espécie de elite daquele mundo, são menos ou nada fanáticos religiosos e seu pensamento é praticamente ocidentalizado em muitos pontos inclusive no quesito corrupção. Via de regra os sunitas estão no comando da maioria daqueles países, mesmo sendo na maior parte dos casos uma minoria populacional, como é comum as classes dominantes. Como em qualquer parte do mundo, o povão, os menos ricos e educados perfazem a maioria populacional e é onde encontramos, por óbvia consequência, maior fervor religioso, quanto maior a chaga, maior será a dosagem do analgésico, fanático que seja.

Considerando-se a apenas a história recente do pós-guerra (WWII), sunitas para governarem como presidentes de reeleição automática ou reis precisavam reprimir a maioria xiita, que os vê como espécies de pecadores. É impossível uma arquitetura democrática tradicional com alternância de poder e o funcionamento de diversos partidos políticos em virtude do fato de que a maioria xiita se organizaria como um partido político e tomaria o poder e assim, em um segundo passo, implantariam um sistema de governo igual ou assemelhado ao que se observa no Irã, com um conselho de clérigos ditando todas as regras da sociedade (o que garante a prática da Sharia) e nomeando um governo de fachada, burocratas ou militares que sujariam as mãos em seu nome… se fosse no passado, ao invés de um presidente, acabariam elegendo um Rei, um Xá, um Sultão, um Emir, um Califa, um Xeque ou um Grão-Vizir para fazer esse papel e tudo começaria novamente.

Para complicar toda essa situação, o ocidente se transformou, ao longo dos últimos 40 anos, em um total dependente do petróleo daquela região… Engana-se quem vê na existência de Israel o verdadeiro problema, eles acabaram se transformando em apenas um pretexto ou elemento de negociação da real questão que é o petróleo que abastece o ocidente e o permite enfrentar os invernos, comerciar com todo o mundo, transportar a comida que necessitam e em vários casos ter também energia elétrica… Vamos resumir: O petróleo é vital para a existência ocidental, a nossa capacidade de estar aqui escrevendo ou lendo para o mundo inteiro usando o código secreto lusitano, nesse exato momento…

Como eles são apenas produtores, os distribuidores acabam sendo uma força a parte em toda essa questão. As democracias ocidentais são subornáveis… Menciono isso só para mostrar como a questão é complexa.

Nesse momento que não se sabe qual será o destino da Líbia, responsável por 10% do petróleo que abastece a Europa, a compreensão das impossibilidades e possibilidades das nações islâmicas se transformarem em algo diferente do quem tem sido é o debate do momento…

De resto, temos que segurar aquela alça do fusca que carinhosamente foi apelidada de “puta-que-pariu” e torcermos para que isso tudo esteja sendo premeditado como um esforço de mais uma vez convencer aqueles povos que não podem chantagear o ocidente com preços… como fizeram de 1973 até 1979… até que o Xá caiu e os reis e ditadores ficaram com  receio de capitalizar os aiatolás com preços altos do barril… e de 2001 a 2011, quando tinham um títere instalado no mais poderoso governo ocidental… Sim, não é uma questão de justiça ou de direito, isso é uma questão de sobrevivência temporária até que possamos realmente ter um substituto energético… Única maneira daqueles povos estarem livres para praticarem suas esquisitices culturais, às quais, evidentemente, possuem todo o direito de acalentar. Minha posição só poderia ser descrita por aquela palavra que falta em nosso vocabulário, compreenderam agora.

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
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4 respostas para Sharia ou não Charia? Eis a Questão.

  1. cesarbarroso disse:

    João,
    Uma autoridade russa acusou hoje o Google de ter sublevado o povo egípcio. Eu acrescentaria à acusação o Facebook e o Twitter. Após as revoltas muçulmanas, será a Rússia a bola da vez? Talvez ainda não.
    Metade dos governos do mundo estão temerosos. Os povos agora já sabem como convocar uma manifestação e derrubar ditaduras.
    E não apenas ditaduras, mas governos eleitos no Wisconsin e em Ohio estão sentindo a força dos networks sociais operando em favor dos trabalhadores.
    “Proletários de todo o mundo, twitte-vos!!!”.

    • João Canali disse:

      Cesar, domingo passado vi uma reportagem que falava de um velhinho americano que estaria na crista da onda (usei uma expressão antiga para combinar…) com um livro que versa sobre Gandhi e o caminho para democracia… Fui agora no Google, crente que sairia na primeira página de busca alguma referência a este autor, apenas colocando a palavra “Gandhi”, “democracia” e “book”, no intuito de trazer uma informação mais precisa e… nada… A reportagem no Manhattan Connection (agora que você tem a Globo é nos domingos, depois da já cansativa reprise do Sai de Baixo, no finzinho da noite, as conclusões nem sempre são boas, mas a pauta é sempre no capricho e, claro, existe uma liberdade jornalística muito superior ao estilo americano e menos daquela pseudo-seriedade…) mencionava que o autor dava palestras e insinuava que aconselhava insurgentes e revoltados mundo afora…

      Quando vejo qualquer revolta, como essas no mundo muçulmano, fico imaginando que a lição de Gandhi não foi aprendida, algo muito mais poderoso do que essa suspeitosa informação que os revoltosos modernos usam o Twitter e o Facebook e que isso foi a diferença, que isso lhes possibilitou ter uma liberdade de expressão que não tinham antes… O russo fez uma acusação falsa, o Google só serviria para mostrar a elite local que sabe falar inglês o quanto eles não tem liberdade, como se isso fosse preciso tendo em volta tantos miseráveis (tipo brasileiro de classe-média alta lutando por democracia com uma empregada doméstica no quartinho dos fundos que não pode beber o leite desnatado da patroa ou mesmo lascas do parmegiano importado do patrão, se sentir vontade…), mas, o fato de um executivo do Google (eles os tem em toda parte) participar das manifestações não significa que o Google derrubou o Mubarak… Como temos visto exaustivamente já a mais de um mês e meio, o que fez eles lembrarem que estavam sendo mau governados por um regime corrupto e autoritário foi o preço triplicado dos alimentos… Afinal das contas o que derrubou Mubarak foi o aquecimento global… dá para satirizar… Mas, interessa revolta que não seja na base da porrada? Não existe um componente de vingança e ódios reprimidos em todas essas revoltas? E se a cultura dos caras diz que a coisa tem que ser com martírio e sadomasoquismo sanguinolento? Gandhi tinha uma cultura diferente nas mãos, gente que entendeu a sacada da desobediência civil que derruba qualquer governo colonial ou não, qualquer elite escravocrata e exploradora e com muito menos ou nenhum sangue. A terra dos faquires que ficam imóveis sem comer durante dias, outra para satirizar… Os exemplos de Gandhi são nitroglicerina pura, governos querem impostos e patrões botar no bolso horas extras… sente no chão, diga não, não obedeça, todo mundo não pagando impostos de forma organizada e ao mesmo tempo… Eles ficam sem salários, propinas e lucros, entram em qualquer acordo rapidamente. Aliás, o ateu aqui lembra que o que Gandhi fez foi muito semelhante ao que os primeiros cristãos fizeram e que tanto desagradou os romanos, que nunca antes implicaram com as supertições dos povos dominados… Eles não pagavam as sextas para o império, eram pescadores… não precisavam gerar tantos excedentes para se alimentarem, ficavam rezando a maior parte do tempo, quanto mais novas ovelhas entravam para aquele rebanho de despojados, menos impostos os romanos recebiam… logos eles, acostumados com as mordomias da escravatura… E se aquilo se espalhasse por todo o império? Se espalhou… e 300 anos depois esse mesmo rebanho de “bonzinhos” chegou ao poder e se transformou na nova elite, jogaram fora o uniforme do despojamento e se cobriram de ouro… O fim dessa historia ainda não foi escrito, pois tudo começou de novo naquele ponto.

      Agora, que existem demandas em todos os países, iniquidades diversas com potencial de revolta popular, que ninguém duvide… Por exemplo, pelo que tenho visto na Internet brasileira já temos um candidato a múmia decapitada, um chupa-cabra de cabeça chata… ele mesmo, o “marimbondo de fogo”… Segundo esse clamor digital o elemento está ótimo para ser o primeiro judas de malhação dos facebooks e twitters brasileiros… e olha que nós usamos Internet de verdade, tem mais brasileiro pendurado na Internet que a população de muito daqueles países agora nos braços da revolta… O nosso Mubarak tupiniquim, feito uma mosca em cima da merda, está em torno do poder a bem mais de 30 anos…

  2. cesarbarroso disse:

    João,
    A ausência da Al-Qaeda nesses movimentos revoltosos das últimas semanas me intriga. Será que democracia não rima com Bin Laden? Ou ele simplesmente está entre aqueles que tiram proveito das ditaduras e da pobreza?
    A conclusão pode ser que ele está em baixa, e que os povos querem barriga cheia. O Ocidente, agora que os movimentos revoltosos são vitoriosos, pegou o bonde andando, como sempre. Diálogo com a oposição quando os títeres estavam em seu vigor, nem pensar.
    Bem, a caixa de Pandora está aberta.

    • João Canali disse:

      Cesar, a ausência de Marines nesses movimentos revoltosos das últimas semanas também é intrigante 😉

      Quem é que vai aparecer primeiro?

      Al Qaeda para mim é bicho-papão, é usado quando querem ameaçar a criança traquina.

      Ontem Obama veio a público para dizer que os atuais acontecimentos no mundo árabe foram espontâneos, que foi o povo reprimido e coisa e tal… Que o governo americano não tinha nenhuma responsabilidade nos acontecimentos que ocorrem. Aliás, esta desconfiança atrapalharia e muito todo o processo de troca de seis por meia-dúzia que se ora se opera… ou seria essa minha afirmação derivada de um incrustado etnocentrismo cultural… eu acho impossível algo muito diferente do agora tem… que luta por liberdade não pode falar em constituição islâmica, ou, pelo menos, o tipo de liberdade a que estamos acostumados a acreditar que exista no ocidente de hoje.

      Me lembro perfeitamente, na vitoriosa campanha democrata, até porque ele repetiu essa afirmação várias vezes, que com ele na presidência haveria prioridade para as ações da inteligência no lugar da força. Inteligência leia-se também, além de boas negociações, o uso dos serviços de inteligência. A força, o uso de Marines, numa clara alusão ao que Bush andou aprontando.

      O que estamos assistindo no OM é um uso intensivo de recursos de inteligência… Saber ou prever o que aconteceria com a intensa especulação das comodities ligadas a alimentação, os castigos climáticos e o momento certo de deixar pseudo-aliados enfrentarem suas incompetentes realidades.

      Tentando um vôo muito mais alto, vejo com clareza que se o Ocidente é miseravelmente dependente do petróleo do OM, esse pessoal todo que depois da WWII saiu de seus desertos e oásis e se apinhou em cidades (aliás como todo o mundo fez… somente a poucos anos atrás constatou-se que a maioria das pessoas moram hoje em cidades…) ficou dependente do petróleo que vende, só que de forma muito pior, através de sua transformação em comida. Resumindo, esse pessoal está tão dependente de comida quanto nós de petróleo… Eles talvez agora estejam entendendo que entregam seu petróleo em troca de alimentos. Se encarecem seu petróleo, se o sonegam para aumentar seu valor nos mercados, esse dinheiro a mais que recebem entregarão pagando a comida que importam… Essa situação é nítida, suas terras não são produtivas, são desertos… Ao morarem nessas mesmas cidades onde acontecem as revoltas perderam totalmente o milenar manejo de sobrevivência que tinham nos desertos… Pior de tudo… nas cidades aumentam seu contingente humano por razões óbvias… Até no cativeiro dos animais domésticos nasce mais animais do que quando soltos na natureza.

      Em mais uma última análise, estão trocando petróleo por água, a água que está embutida na “fabricação” dos alimentos que importam.

      Hoje um desses golens hibernantes de nacionalidade saudita foi preso ao estar se preparando para explodir uma usina nuclear em Dallas… A mídia republicana já associou a uma possível tentativa de assassinato contra Bush, até porque encontrou o endereço de Bush entre os possíveis alvos!!! Pura ação de inteligência, mas só que do eixo do mal… O camarada mandava email para si mesmo com a lista de possíveis alvos, ora vejam só… Reservatórios de água, usinas nucleares, etc… Tentou comprar na Internet todos os materiais necessários a fabricação de uma bomba… Qual terrorista não sabe que isso é ultra tracejado? Enfim, estava hibernando desde 2008 para quando chegasse o momento certo aprontar alguma… Ninguém desconfiaria da nacionalidade, afinal, não desconfiaram dos 19 sauditas que armaram o 9/11… Vão chamar o bicho-papão Al-Qaeda, essa vai ser a nacionalidade… O endereço na agenda é para demonstrar que Bush é um grande inimigo desses depostas do OM, não um amiguinho de carteirinha… Que a ameaça do terrorismo ainda existe e coisa e tal… Isso indica que o eixo do mal ainda não capitulou, nessa batalha de 2011, que vão insistir… Mas, indica também que continuam confiando na falta de capacidade do público de entender o que se passa e de só reagir a estímulos de medo.

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