Se Querem Condenar Belo Monte que Comecem pelo Pré-Sal…

Recebo pelo email o convite para assinar uma petição pelo fim da construção da projetada hidroelétrica de Belo Monte. O link da ONG internacional que organiza a petição está aqui.

Deve o Brasil aproveitar seu manancial hidrográfico para produzir a mais pura e desejável energia que existe? A questão se faz em função da quantidade de floresta que será inundada e dos índios que serão desalojados… Temos uma escolha aí que não é tão simples assim…

Se pensarmos no montante de energia que essa usina produzirá ao longo do tempo, o quanto ela evitará de emissão de CO2, certamente que a vantagem ecológica penderá a seu favor… Quando o petróleo começar a faltar daqui a algumas décadas (isso se tornou imprevisível em função da exploração em alto-mar… os pré-sais da vida mundo afora…) hidroelétricas serão pepitas, jóias raras, aliás já o são… poucos países no mundo possuem manancial hidrográfico para tê-las… Ela será a terceira maior hidroelétrica do mundo, mesmo considerando-se que durante o período de seca da região, sua produção deva cair para 10% de sua capacidade… De qualquer forma, mesmo assim, economicamente, pensando no país, ela terá um proveito muito maior que as terras que ocupará, terras sem outro destino do que servir de reservas ecológicas e antropológicas (os índios)… Coitadinho dos índios?! Humm, não é por aí… Quais deles? Não existe nessas culturas nenhum grande conhecimento que ajude na aventura do saber humano… sim claro, o lado filosófico… se pudéssemos ficaríamos a vida inteira pelados consumindo alucinógenos naturebas da pesada… que se dane se ficássemos pelos 40 anos… mas, sabemos que muitos prefeririam um bom antibiótico e analgésico na hora certa… Essa questão do convívio ou não convívio com as poucas culturas ainda não contaminadas pelos valores ocidentais da revolução industrial é um debate a parte… Nunca ouvi ninguém que conseguisse harmonizar a coisa de forma totalmente racional ou ética…As mesmas ONGs que defendem deixar os índios intocados em suas reservas, são contra os fanáticos muçulmanos que ralam o ponto G das muçulmaninhas ou que executam à pedradas acusadas de adultério…  Cultura primitiva só vale quando não machucam os valores culturais de quem as observam, quando se prestam a projeções dos mesmos bons sentimentos dos deuzinhos de cabeceira cultural do observador.

O que pega então em relação a um sinal verde para Belo Monte… Medo de mexer com a natureza planetária… O que significará aquele espelho d’água a mais na circulação dos ventos? Entre outras elucubrações… Tem médico a favor da cirurgia e outros contra, um dilema que se torna intenso em um momento onde todos estão de sobre alerta em meio a catástrofes climáticas, seja isso uma sensação induzida pelo sensacionalismo midiático ou não.

Agora… sinceridade… me parece suspeito ou ridículo fazerem um escarcéu com  Belo Monte e não fazerem o mesmo com a exploração do pré-sal… Tudo bem que as bactérias fizeram um vinagrete com o óleo do Golfo do México ano passado… Mas, teriam tido uma indigestão se o furo não tivesse sido lacrado. Falamos de um poço a mil e quinhentos metros de profundidade, não de um a 6 Km distante da superfície e a várias milhas da logística vinda do litoral… desculpe-me qualquer imprecisão… Não vou nem mencionar algo que soe como o tão comum complexo de vira-lata, mas, evidentemente, que os recursos brasileiros para lidar com a mesma situação de vazamento em plataformas de petróleo seriam bem inferiores… Por que não passam listas contra o pré-sal? Eletricidade é o futuro e a salvação… Como falar de Belo Monte e esquecer do Pré-Sal? Por que sabem que não adiantaria? Que o país jamais desistiria de obter uma riqueza daquelas, mesmo ao preço dos malefícios associados? E eu nem entrei na polêmica do CO2… Só se gasta reclamação quando há chances de vitória, caso contrário não passa de queima de filme? Por que o pessoal das ONGs é corajoso, mas não é suicida de enfrentar o poder mafioso da distribuidoras de petróleo? Por que na verdade trabalham pra eles, recebem doações secretas? Um péssimo exemplo para os jovens que vêem nas ONGs uma alternativa a estados corruptos e a multinacionais da real plutocracia mundial… Não dá para ir contra a geração limpa de eletricidade e ficar calado perante a produção arriscada de petróleo, um veneno químico e político condenado por todas as opiniões sérias… Tem que haver uma coerência.

O Brasil tem se sustentado desde sempre na exploração de sua natureza, entramos sempre com a morena região glútea no bacanal tecnológico planetário… Temos que ser especialistas, não viciados na coisa, contudo, esse é o verdadeiro lamento, se o país fosse bom de ciências estaríamos seguros quanto a todas essas opções.

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
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8 respostas para Se Querem Condenar Belo Monte que Comecem pelo Pré-Sal…

  1. João Canali disse:

    Coincidentemente leio hoje um artigo na Popular Mechanics que fala da atenção que é dada hoje nos EUA contra a invasão de determinados animais que se deslocam de um ecosistema para outro de onde não são originários, o que me faz lembrar dos cuidados e estudos que devem ser realizados antes de se construir uma barragem que inundará uma grande quantidade de terra…

    Algum dos exemplos dado naquela matéria:

    De uma população estimada de 6 milhões de colméias em 1940 os EUA assistiram um declínio da população de abelhas que chegou em 2008 a estimadas 2 milhões de colméias. Causa principal: Em algum ponto desse período de tempo importaram uma variedade de abelhas asiáticas de boa produção de mel que trouxeram junto uma espécie de carrapato (imaginem o quanto essa criatura é pequena!) que suga o sangue das abelhas fazendo-as ter morte prematura. As abelhas asiáticas que trouxeram esse carrapato “sabiam”coçar-se forte e safar-se assim do parasito, as abelha americanas não possuem a programação genética dessa defesa e morreram além da conta… Os cientístas americanos estão agora estudando o genoma das abelhas para determinar a sequência do código genético responsável por “saber coçar-se” e assim poderem realizar uma “seleção artificial das espécies”, dotando as abelhas americanas da mesma defesa.

    Uma serpente que vive nas arvores da Austrália, durante a Segunda Grande Guerra, entrou em um avião de carga americano (devia estar prenha) e acabou desembarcando na Ilha de Guam, onde os EUA possuem uma grande base militar… Resultado: As tais serpentes acabaram com as aves nativas das florestas da ilha, além dos morcegos… a polinização local foi para o saco, além de colocar animais em extinção… Com receio de que uma serpente dessas viesse parar nos EUA embarcando clandestinamente em outro avião, passaram a colocar ratos mortos com veneno nos aviões e depósitos de carga da ilha, uma espécie de armadilha para matar as ditas cobras.

    Descobriram que uma Carpa asiática que haviam importado da China comia 40% de sua massa corporal de plankton, acabando com a comida de outros peixes… Essa carpa proliferou-se no rio Mississippi e infiltrou-se na bacia hidrográfica do estado de Illinois com as grandes inundações que tem ocorrido ultimamente teme-se agora que essas Carpas Asiáticas consigam penetrar nos Grandes Lagos… Estão estudando a colocação de barreiras eletrificadas para impedir essa invasão que causaria um grande problema no ecosistema dos ditos imensos lagos…

    Vale lembrar que toda essa questão do ecosistema funciona na base do efeito dominó, um acontecimento leva a outro e quando nos damos conta um detalhezinho tão pequeno quanto um carrapato de abelha pode levar, quem sabe, ao fim do mundo… Para não ter que usar muito a imaginação… “O ditador que apertou o botão nuclear ficou irritado naquele dia que não teve mel em seu waffle no café da manhã….” Seria a caricatura…

    Então, com a ciência que é praticada no Brasil dá pra confiar no parecer que o lago formado pela hidroelétrica não causará nenhum dano ambiental ou ao ecosistema? Por conta dessa dúvida se para um projeto de obtenção de energia limpa? Energia que talvez ajude ao país a ter ciência de maior qualidade? Tudo parece ter um efeito dominó embutido…

  2. cesarbarroso disse:

    João,
    Realmente fica no ar a pergunta: por que a usina de energia limpa e não o pré-sal?
    No duro no duro, não deveríamos fazer nenhum dos dois. Ambos agridem violentamente o meio-ambiente. O que acontece é que a humanidade fez uma escolha pelo desenvolvimento, o “progresso”, e está se atolando porque não conseguimos mais pensar corretamente. A velocidade desvairada de nosso tempo nos faz tontos. Não dá mais para parar esse trem sem freio que desce uma ladeira sem fim. Cada um puxa a brasa para a sua sardinha. Esse pessoal de ONGs é pago para fazer essas campanhas. Não vejo mal intenção neles, não. Vejo apenas que precisam criar certas crenças para poderem receber o salário no fim do mês. Volto à mesma tecla: estamos todos loucos. Não podemos continuar a nos multiplicar como ratos e baratas na face da terra. Aliás, as baratas e os ratos nós, humanos, conseguimos controlar. Mas quem consegue nos controlar?

    • Max Dias disse:

      De pleníssimo acordo, César. Sua colocação é radical, isto é, vai à RAIZ do problema. Por mais que o homo sapiens tenha orgulho do seu ridiculo conhecimento (predatório), se ele não se voltar para si mesmo e considerar-se o principal problema a enfrentar, o tal “Antropoceno” que iniciou no século XVII será mais uma era de curta duração a ser estudada por outras espécies vindas… de fora. Da fase de economia coletora (predatória), passando pela economia agrícola (predatória), a economia urbana industrial (predatória), o que mudou foi a sofisticação coletora e a quantidade. Se o planeta era imenso, hoje é quando muito um ponto (ainda) azul no espaço. A sociedade de consumo é a consequencia natural da economia industrial, e se a China, que hoje tem o volume de consumo equivalente ao da França, cumprir seus desígnios, o planetinha não dará conta da sanha predatória. A China tem hoje a população mundial de 1930…

      Afinal qual o porque da importancia de pensar em Belomonte e no Pré-Sal? É que se torna evidente que a coisa não pretende parar tão cedo. Ambos são empreendimentos visando a sustentação e perpetuação do consumo da sociedade industrial. E, BTW, não sendo novidade nenhuma, os grandes reservatórios não afetam apenas os microclimas, mas produzem uma imensa quantidade de metano, um grande fator no efeito estufa.

      Quanto ao Pré-Sal, não acredito que venha a ser plenamente explorado: não existe ainda técnica viável para furar 6 a 7 km de pasta de sal sobre uma lâmina dagua de 2000 metros. Toda tecnologia de perfuração tem de ser reinventada: robôs multitarefa, brocas e sondas autopropelidas, tubulações com resistencias ainda nem sonhadas. Cada poço terá de ter uma frota de 16 grandes navios ao seu redor. A industria fala em um investimento inicial de 600 bilhões de dolares, principalmente em pesquisa, nos primeiro DOIS anos. Vamos encarar: não há o dinheiro para essa aventura, nem nos sonhos da Petrobrás e do mal informado (ou mal intencionado) governo, e nem na industria petrolífera do mundo todo. Está claro que há alternativas, mas as decisões infelizmente não são tomadas pelo bom senso. No máximo farão alguns furos nas pontas da reserva, visando extração de gás, o que já será muito. Petroleo do Pré-Sal? Mais barato ir à Lua.

  3. João Canali disse:

    Max e Cesar, eu tenho uma visão discordante de vocês no tocante ao ser humano. Tendo a ser mais compreensivo. O que eu vejo é que tudo que observamos em relação ao nosso comportamento é mais do que previsível diante as incríveis circunstâncias que nos encontramos.

    Imaginemos aquele ET que nos encontra e nos observa secretamente a partir de suas naves invisíveis, não esses UFOs de má fabricação que até radares terrestres detectam ocasionalmente… Aquele ET com carteirinha de candidato a semideus mitológico do universo… Qual seria sua análise?

    Falando entre eles… “Ora vejam só esses seres de capacidade cognitiva desse planeta de categoria M… O processo evolucionário lhes deu essa coisa rara no universo que é a auto-consciência, eles tem uma boa noção do que são… Vejam que coisa extraordinária! Todos eles sabem que se deteriorarão e morrerão um dia… Sim eles são mortais, temos que analisá-los a partir desse grande diferencial. A capacidade cognitiva vem através das sociedades que formam, a capacidade intelectual é dependente das sociedades que criam, praticamente nada vem programado geneticamente, a ponto de uma mãe humana não saber o que faz com sua cria caso não pertençam a uma sociedade… Até para se comunicarem precisam de uma código obtido de uma sociedade, nada vem programado, seus instintos são limitadíssimos. Por falta dessa mesma programação, que é encontrada entre outros seres vivos do planeta, eles formam diversas culturas ou tipos de sociedade a depender da geografia local… Tudo ocorre em bases acidentais, a mutação que levou a capacidade de raciocinar foi brusca, não houve estruturação biológica prévia para a vinda das capacidades cognitivas e estas vieram em um ser frágil para as circunstâncias naturais do planeta. Tenho até a impressão que se trata de uma adaptação de emergência… Como se seres cognitivos de outro planeta precisassem as pressas de um corpo que se adaptasse a natureza planetária da Terra, mas, não conseguiram terminar o projeto… Apesar de viverem em sociedades, eles não possuem contato com nenhuma outra criatura com auto-consciência, para terem melhores parâmetros, estão sozinhos nesse planeta… Mas, sabem que vão morrer, que tudo que realizaram e realizarão um dia em suas vidas não fará o menor sentido para eles mesmos, que não estarão lá para ver as consequências últimas de seus atos. Nós não sabemos o que isso significa, nunca passamos por isso… Claro que eles abafaram todo esse sofrimento com fantasias e devaneios os mais diversos e graças a essas ilusões mantém um certo equilíbrio, sem que haja suicídios coletivos ou uma anarquia degeneralizada… Com tudo isso eles ainda conseguem evoluir, guardando o conhecimento nas estruturas sociais, sem que haja nenhuma gravação biológica de saber e, surpreendentemente, se dirigem para a aquisição da imortalidade pelo saber… Toda essa confusão que fazem acaba sendo uma bagunça organizada que leva a passos incrivelmente avançados… Pegando a fonte de saber de fontes de armazenamento externo, utilizando as fantasias só no que lhes interessa… Claro que diversas dessas sociedades não conseguem fazer isso tão bem quanto outras, existe muita disputa entre elas, mas agora eles parecem que estão unificando o pensamento planetário… A base de dados externa a que cada terráqueo pensante estará sendo sujeito se ampliará muito. Evidente que essa transição será dificílima e muito confusa, mas eles vão rápido… Tomara que consigam.

  4. Max Dias disse:

    Poética resposta, meu amigo. Mas é uma hipótese de uma visão “canalienígena”, comoventemente paternalista, vinda do ambiente amniótico da grande familia, do macarrão dos domingos, do doce olhar regalando-se sobre as crianças, sobre as piadas cheias de alegria e tudo aquilo que fala, não da sociedade, da grande sociedade, mas do núcleo familiar. Este é o centro em torno do qual evoluimos na grande escala do tempo geológico. É nessa escala de tempo que as inteligencias instrumentais, sociais e ambientais, antes separadas, se fundiram e, trabalhando num unico espaço mental, alcançaram o que gostamos de chamar, indulgentemente, de auto consciencia. Isso sim pode ser chamado Evolução, ao longo de centenas de milhares de anos.

    Mas a familia cresceu em direção à sociedade, e se destribalizou. A vida urbana levou a isso, em 7 ou 8 mil anos. E nesta escala de tempo falamos de uma OUTRA evolução, a histórica, aquela sempre girou em torno de guerras. De Tróia ao Vietnan, o que mais fizemos de significativo foi matar-nos uns aos outros. Só no “breve século XX” matamo-nos, deliberadamente, na ordem de 150 milhões de individuos. Nossa fabulosa e aética ciencia deve seu desenvolvimento, na maior parte, às guerras. Sempre competiremos, se preciso mortalmente, e o conhecimento será sempre a arma mais forte. E, mesmo assim, a vida continua vencendo, em pouquíssimo tempo seremos 10 bilhões, sem termos conseguido unidade em coisa alguma. Em coisa alguma.

    Só para dar mais peso ao argumento, Christopher Lash, em seus livros, lamenta o fato do Estado ter assumido as funções geralmente desempenhadas pela família. Aprendizado espiritual e moral, disciplina da cidadania, controle territorial, até a imposição de usos e costumes da própria natureza de cada familia. Quase um exército, mas muito mais abrangente, muito mais fatal.

    O Estado destruiu a familia, em nome da sociedade. E cobra por isso.

    Não há dúvida de que o ser humano é, por natureza, gregário. Não fosse assim não teria sobrevivido aos séculos. É preciso 13 a 14 anos para que o amadurecimento do sistema nervoso humano inicie a consolidação – nenhuma outra espécie tem tanto tempo de amadurecimento, que seria completamente impossível sem a vida em grupo.

    O amadurecimento social, não necessáriamente político, não virá mansamente. Nessa evolução pacífica não acredito, e tenho milhares aí de anos de história para provar. Será uma evolução convulsiva, que já toma corpo, pipocando aqui e ali à medida que o calor aumenta.

    E quem pode afirmar, com tranquila certeza, que os sobreviventes partirão de um patamar superior?

    • João Canali disse:

      Max, não é paternalismo nem tão pouco advocacia luciferiana, é simplesmente chamar a atenção que é pura perda de tempo arranjar mais condenações para quem nasce já condenado a morte e sabe disso lá pelos 7 anos. O macaco pelado só poderá ser chamado as falas e cobrado eticamente ou por mau uso de seus dons cognitivos no dia que se tornar imortal. Como cobrar perfeição de uma criatura que cada vez que nasce tem que aprender tudo que seus antepassados aprenderam? Veja as formigas e abelhas, esses sim animais sociais, vem com todo seu conhecimento existencial pronto de fábrica… uma sociedade perfeita composta de príncipes irmãos, todos filhos de uma mesma rainha… isso sim uma grande família… e todos imortais, não sabem que morrerão um dia… e veja como também são predadores… Bom, as abelhas nem tanto, é verdade…

      Max, agora sem lirismos… O homem se absolve em qualquer auto-crítica, o fato de saber o que seria certo ou errado já cria a verdadeira absolvição, significa que é possível um conserto… Contudo, se ninguém se queixar como você o faz, a evolução não acontece… Por isso compus meu indulgente alienígena antropólogo, para livrar o julgamento de nossa inevitável contaminação cultural, os “certos” e “errados” que vem da cultura.

  5. cesarbarroso disse:

    João e Max,
    Insisto que estamos trilahndo um caminho errado. Temos consciência do que deveríamos fazer, mas há uma corrente mais forte que nos leva noutra direção. O indivíduo precisa de paz social para desenvolver novos parâmetros de pensamento que levarão certamente a ações menos opressoras, mais felicidade para todos. Ao invés, criamos a tecnologia, e elas nos oprime. A tecnologia, a não ser em alguns casos, nos oprime. A tecnologia virou um dogma. Vejam, num caso extremo, o que ela fez com Detroit. E aqui convido os amigos, com a licença da casa, a visitarem meu blog http://cesarsphotos.wordpress.com. No passado, civilizações morreram e vastas áreas foram abandonadas por causa de catástrofes climáticas. Detroit quase acabou por causa do uso indevido da tecnologia, e, acrescente-se, conflitos raciais, que, de uma certa forma, foram exacerbados pelo ganância que a tecnologia tem feito crescer.
    Max, você tem toda a razão em afirmar que “a coisa não pretende parar tão cedo”. Isso é uma bola de neve descendo uma ladeira infinita. O que virá depois de Belo Monte? E do pré-sal? Não concordo com você que o pré-sal é inviável. Não, a ganância gerará novas tecnologias. O pré-sal será explorado, pode acreditar.
    Só pararemos com essa loucura forçados pela exaustão do planeta. Não quisemos fazer controle da natalidade, mas o controle será feito à força. Nos mataremos de forma a tornar os 150 milhões de mortos do Séc. XX um número inexpressivo.
    Salve-se quem puder!

    • João Canali disse:

      Temos um defeito nas mãos, um ser mortal, que possui uma inexorável programação genética que o faz morrer findo seu prazo de validade e a consciência de que isto vai acontecer. Trataria-se de um erro de projeto, caso fossemos planejados intencionalmente e não apenas uma mutação extravagante da seleção das espécies, seres mortais, que não são capazes de reciclar energia indefinidamente enquanto ela houver, não deveriam ter consciência da própria morte. Na verdade, a natureza observável nos diz isso, nós somos a única exceção conhecida, isto é, somos a única criatura conhecida que possui pré-consciência da morte… Reações a eminência da morte observada em outros animais, como a ovelha que “chora” ao estar sendo conduzida ao matadouro, nada mais são do que reações anímicas relacionadas ao olfato que identifica os hormônios do medo, ovelhas não possuem a concepção da morte.

      Para fazer frente a esse “defeito”, o homem inventou, logo após a fala, ainda em uma conjectura tribal a imortalidade através das ficções religiosas. Todas as culturas conhecidas do presente ou do passado registram mitos relativos a uma vida além da morte. Mas, no entanto, nada disso convence muito os homens, existindo uma variedade muito grande desse grau de convencimento a depender das culturas e das dificuldades à sobrevivência na natureza ao redor. A vida, dentro desse contexto, possui valor relativo, trata-se de um rito de passagem onde as culturas estabelecem o valor do ticket do além morte através de um mérito ligado a sua funcionalidade, das hierarquias que se estabelecem… as culturas em si mesmas possuem, metaforicamente, vida própria, a plasticidade é formidável a ponto de vermos, por exemplo, os Maias, donos de um saber tecnológico avançado para seu tempo, se compararmos a outras culturas que lhes foram contemporâneas, entregues a sacrifícios humanos em “honra” de seus deuses… certamente devido a necessidade de fixar a crença que aquela morte nada significaria para a eternidade de seus espíritos no além morte. A grosso modo o grau de convencimento da imortalidade do espírito varia em função das dificuldades dos grupos, quanto mais difícil a vida do grupo em função da qualidade de suas tecnologias e da natureza onde estão inseridas, maior esse convencimento.

      Chegamos em nossa era, onde a tecnologia proporciona a diversos grupos uma qualidade de vida extraordinária, se compararmos as agruras que nossos antepassados passaram com a natureza, o que tem possibilitado um relaxamento significativo daquele convencimento necessário lá atrás. Poderíamos relacionar então: A qualidade de vida valorizando o pré-existente instinto de sobrevivência, aumentando o inconformismo com a morte, diluindo as filosofias de aceitação da morte e os mitos referentes a uma vida etérea após a morte; a aquisição de maior tempo em conjunto com acesso a um maior conjunto de informações, o que, evidentemente, leva ao aniquilação daqueles mitos… e por último, claro, a própria qualidade do saber.

      Curioso notar a sequência de fases ocorrida na Europa, ou mais precisamente na cultura ocidental… Alquimia, o movimento enciclopédico e o iluminismo e o surgimento do espiritismo (que apesar de ser pouco expressivo em termos de poder religioso tradicional, penetrou no senso comum das pessoas na aceitação cultural da existência de fantasmas e espíritos reencarnados… não deixando de ser uma dose do mesmo remédio, sem as fantasias pesadas e bolorentas comum as religiões…). No movimento alquímico transformar chumbo em ouro nada mais era do que o teste de que a Pedra Filosofal havia sido encontrada, Pedra esta que devidamente preparada seria o Elixir da Vida Eterna… da vida física, não mais de uma suposta vida espiritual… Verificou-se que era necessário muito saber, vieram os enciclopedistas no que descambou no uso deste saber, o iluminismo, que, para ofuscar o poder temporal das religiões (agarradas a velha tecnologia de convencimento de imortalidade espiritual, mas ainda bastante influente e combativa), trás o espiritismo como que querendo extrair o cerne da questão… Entretanto, em meio a essa sequência de movimentos surge a ciência que nos guiaria até o presente momento, o evolucionismo de Darwin…

      O quadro atual da luta do homem contra a morte está absolutamente confuso… Dai talvez a origem de suas observações pessimistas Cesar. As tecnologias se tornaram algozes e salvadoras quase que ao mesmo tempo. A mesma tecnologia que salva a vida de milhões também é capaz de acabar com os mesmos milhões ou mais. A tecnologia proporciona que os homens vivam mais tempo, que morram menos nos primeiros meses de vida também permite que haja um controle da natalidade que possibilita uma quebra de tabus sexuais aumentando os relacionamentos sexuais e as chances de maiores nascimentos… Com o aumento populacional as guerras surgem e a tecnologia da guerra permite que mais pessoas sejam mortas… A bomba atômica mata mais gente, entretanto, inibe as grandes guerras onde mais pessoas morreriam… As vacinas salvam milhões de vidas que se apinham em grandes centros urbanos que se tornam cadinhos para novas epidemias… a tecnologia dos transportes que fazem possível o estreitamento das culturas terrestres levando a tecnologia a lugares onde ela não existia possibilitam aumentos populacionais, logo o aumento do consumo de comida, a poluição da atmosfera e a necessidade de extração de mais energia… As maravilhas da automação ceifam milhões de empregos, mas permitem que eu esteja aqui escrevendo tentando colocar uma pedrinha na construção humana… Enfim, um círculo vicioso que mata e salva, sendo que em uma dessas voltas o controle do envelhecimento que está cada vez mais perto de ser obtido… Como se tudo que fizemos até agora tenha tido como objetivo principal vencer aquele nosso defeito de projeto. Acho que não temos muita escolha não… é vencer ou perder, em suma é ir para o front, no ponto a ponto, a condenação geral não existe ou não faz o menor sentido… Não temos um sistema socioeconômico eficiente? inventemos outro ou reformemos o atual. Vamos consertar o defeito, até porque, verdade seja dita, não temos nada melhor para fazer.

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