Convulsão da Fome

Alguns dias atrás discutimos aqui no post “Mais Água no Feijão” o problema da fome. Naquela semana o país do Oriente Médio que estava em Manchete era a Tunísia. Agora temos o Egito e diversos outros da região, como que em onda, apresentando problemas com revoltas populares.

Se repararmos em todos esses paises, encontraremos alguns pontos em comum…

__ Todos são países de baixa produção agrícola devido a solos áridos, semi-desérticos ou na faixa do deserto do Sahara. Leite de cabra e tâmaras são muito bom para beduínos, essa gente está morando em cidades…

__ Muito embora Líbia e Argélia possuam significativa produção de petróleo seus poços estão em declínio de produção e podem se juntar com os demais que não exportam petróleo. Ou seja, os recentes aumentos do preço do barril vão direto para o preço dos alimentos que importam, sem que haja uma compensação de caixa por estarem ganhando com o aumento do preço do barril.

__ Todos são países com regimes pouco ou nada democráticos… O que pode estar confundindo a percepção política dos fatos que ora ocorrem. Em todos os países em início ou já em plena convulsão social está presente o quesito “inflação nos preços dos alimentos”… A mídia internacional não está mostrando a intensidade dessa afirmação.  Essa revolta seria contra ditaduras sedimentadas a décadas e que sempre foram tradicionais em repúblicas islâmicas da segunda metade do século XX, seja por questões culturais ou de “apoios” externos a governos ditatoriais que mantenham a região estabilizada por conta de serem terrenos baldios e quintais de grandes campos petrolíferos que tem que ser deixados em paz… ou está sendo provocada pelo explosivo poder que a fome contém? Creio que a segunda hipótese é a que prepondera.

Importantes safras quebraram ano passado em função dos problemas climáticos ocorridos em 2010. A crise econômica na Europa provocou problemas econômicos em toda a franja mediterrânea… Em ditaduras, o ditador é o culpado… bem feito. Trocar ditadores safados e sanguinolentos por religiosos fanáticos é como trocar seis por meia dúzia, além de não resolver o problema da liberdade, nem, muito menos, o econômico, ocasiona retrocesso cultural e social.

O que terá que ocorrer? Como a instabilidade política na região não interessa aos grandes produtores de petróleo da região, cujos líderes e nababos chefes não querem saber de democracia nem de governos de aiatolás, o que poderão fazer é aumentar a produção de petróleo e assim baixar o preço do mesmo, permitindo que não seja tão caro a importação de comida de fontes alternativas e distantes das rotas tradicionais de distribuição… Por outro lado, o presidente do maior consumidor de petróleo (cujo último discurso pode-se resumir como sendo um libelo contra os maiores interesses das distribuidores de petróleo, que sabidamente são os maiores financiadores da oposição a seu governo…) agradeceria essa queda de preços do barril, pois, seria o melhor insumo para mais uma rodada de crescimento econômico de um sistema sabidamente condenado, mas, que é o único capaz  de ainda funcionar nesse momento da evolução social.

Outra possibilidade seria manter os preços do petróleo em alta tentando acompanhar a retomada da economia americana, deixar de colocar as sobras em países emergentes que pagam excelentes juros e emprestar para os ditadores o dinheiro necessário para subsidiar a comida.

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
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5 respostas para Convulsão da Fome

  1. cesarbarroso disse:

    João,
    O aquecimento global e a crescente população me lembram aquela história do sapo que caiu na panela de água fria mas que esquentava em fogo baixo. O sapo morreu alegre porque a água aumentou a temperatura numa velocidade confortável.
    A coisa vai ficar feia mesmo quando as atingidas forem populações acostumadas a comer bem há séculos, as populações do primeiro mundo e de alguns países emergentes.
    Mas isso quem verá serão os nossos netos…

    • João Canali disse:

      O Rei da Arábia Saudita já deu o recado hoje que não quer instabilidade no Egito, leia-se: não quer que o atual faraó saia do poder… Hilary e Obama que estavam subindo no muro (como defender um cara que não sai do poder a 30 anos e ser do partido democrata? Saia justa resultado de décadas de má política externa… e sem poder dizer que a oposição composta de fanáticos religiosos que eventualmente suba ao poder é pior a emenda que o soneto… E tendo que esconder, que ela vem a calhar para meter medo nos produtores de petróleo da região que tem que garantir mais 10 anos de preços estáveis e baixos, caso contrário a casa cai e o sistema não se recupera…) se apressaram em afirmar que não vão retirar a ajuda de 1bi e meio anual que provavelmente sustenta boa parte das forças armadas egípcias… Eu juro que vi Migs 23 sobrevoando o Cairo hoje… Que coisa doida… Eles ainda possuem aviões do tempo que não recebiam ajuda alguma, muito pelo contrário…

      Ora veja só que loucura… Que circulo vicioso, um mitológico moto-perpétuo… O clima aquecido além da conta incendeia o trigo russo e diversas outras safras se perdem, os alimentos sobem de preço para um grupo de Sem Petróleo, levando a revolta às economias mais fracas vizinhas aos maiores produtores de petróleo que para amenizar o risco de serem ilhas de prosperidade cercados de guerras civis por todos os lados, feito brasileiros novos ricos em condomínios fechados ao lado da favela, resolvem fazer o preço do petróleo baixar (pode até aumentar em um primeiro momento para justificar o aumento exagerado da produção que fará o preço cair, aliviando assim a todas as economias…) e petróleo mais barato significa maior consumo, maior emissão, mais aquecimento, mais safras perdidas, mais revoltas, mais medo…

  2. cesarbarroso disse:

    João,
    Você acertou na mosca: um círculo vicioso.
    No Rio está fazendo um calor com sensação de 43 graus, e em Chicago espera-se uma tempestade de neve que poderá paralisar a cidade.
    E, na arena política, o Egito está desestablizado em poucos dias, com a destribuição de alimentos congelada. Veja você como a estabilidade nos nossos dias é uma casca de ovo. Não custa muito para o caos se estabelecer.

    • João Canali disse:

      Cesar, única matéria que achei discutindo o problema da fome (ou a sua expectativa) no Egito de forma séria e focada foi esse. O resto da mídia que tenho visto só quer saber da fanfarra da derrubada de mais um “ditador”… De fato, notícia é cada vez mais mercadoria, destacam somente o que causa atração da legião de linchadores planetária, hávida por bodes espiatórios e judas diversos… que se dane a boa análise da situação.

      Se ingleses, espanhóis e suecos fossem ao supermercado e encontrasse a maioria dos alimentos que mais consomem com o dobro do preço… Estariam em poucos dias derrubando suas decorativas monarquias lembrando que a séculos sugam impostos ou quanlquer outra acusação… Não iam nem querer saber se os russos tivessem suspendido todas as suas exportações de trigo em função da sêca e dos incêndios do ano passado…

  3. cesarbarroso disse:

    Há uma tendência humana geral de se evitar notícias sérias e cujo divulgação exija ação. A turma quer sombra e água fresca. Mas a gente vai precisar de muita sombra e água fresca por causa das mudança climáticas drásticas que já estão ocorrendo.
    Sobre o aumento do preço dos alimentos a nível mundial, hoje, a CNN saiu com essa – http://www.cnn.com/2011/WORLD/europe/02/03/world.food.prices.rise/index.html?hpt=T2. Apenas em janeiro a cesta básica teve um aumento de 3,4%. É muito!
    Acho que temos que mudar o tipo de conselhos que damos aos nossos filhos. Daqui para frente tem que ser: “Compre terrenos longe dos grandes centros urbanos; que sejam terrenos perto de mananciais de água; desenvolva conhecimentos básicos de agricultura; aprenda a criar galinhas; procure incutir em seus filhos a necessidade de estarem preparados para as catástrofes climáticas futuras…”.
    É por aí…

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