Mais Água no Feijão…

Esticada por crescente demanda, a cadeia mundial de alimentos está sendo atingida também por fenômenos climáticos que afetam as colheitas mundo afora. O Economista Chefe da FAO (Organização  das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação) declarou semana passada que estamos (nós terráqueos de algumas poucas civilizações existentes, todas elas cheias de gente que come…) entrando em um território perigoso no que tange o abastecimento global de comida… Vejam essa notícia.

Temos aí 4 causas:

1 – O preço dos combustíveis sobe e com ele o preço dos alimentos que transportam. Não podemos esquecer que em junho de 2008 o barril chegou a custar US$ 126.33 contra os atuais aproximados US$ 90.00 de hoje… A análise dos preços indica que os preços tendem a acompanhar a recuperação econômica norte-americana (o maior consumidor) em bases meramente especulativas onde o aumento ou diminuição de demanda não é um  componente isolado em um complexo quadro político. A indústria que lida com esse segmento sabe que qualquer tentativa de extorquir seus clientes com sua tradicional e característica ganância os mata, em um quadro que não interessa a ninguém, inclusive a eles mesmos, o que lhes importa… Já causaram um tremendo mal e se arriscaram muito ao, politicamente, intervirem nos EUA para ajustarem preços defasados. A historia sangrenta e de tragédia mundial causada por Bush no afã de lhes servir é no fundo uma experiência negativa, mesmo considerando-se que a Exxon tenha sido alçada a condição de companhia privada mais rica do planeta, levando junto nessa ascensão as demais irmãs do petróleo.

2 – Secas e inundações mundo afora inibem a produção e a falta de oferta provocando carestia nos alimentos. O clássico leilão econômico de sempre… Não conseguiu produzir ou escoar a produção, faltou no mercado… essa falta, valoriza o pouco que é ofertado…

3 – O aumento do uso de biocombustíveis que, no frigir dos ovos para efeito de preço dos alimentos, se resume ao uso do etanol de milho misturado (em até 10%, a etiqueta na bomba me avisa) na gasolina dos americanos não só faz comprometer 1/3 de sua produção no país, como também faz seu preço ficar a reboque do preço do barril de petróleo… Esse 1/3 da produção é muita coisa… O milho é água no feijão, quando falta trigo para fazer o pão se coloca milho, vale lembrar… O milho é a base da ração para muitos animais… Um verdadeiro coringa da alimentação… Sua falta ou aumento de preço causa carestia em toda a cadeia alimentar do bicho homem…

Aqui vale uma curiosidade… Fidel Castro foi o primeiro a dar publicidade ao fato que o uso de biocombustíveis faria aumentar o preço dos alimentos… Quando fez essa declaração foi como uma ducha de água fria sobre o Brasil, já que Lula, naquele momento, estava se transformando em um grande garoto propaganda dos biocombustíveis a nível internacional, em função do etanol brasileiro feito com cana-de-açúcar… Lula nunca confrontou essa afirmação. Mas, pouquíssimo tempo depois, questão de meses talvez, foi anunciada a descoberta do pré-sal e Lula emudeceu sobre a questão dos biocombustíveis… A mídia brasileira chamou atenção sobre isso? Que eu tivesse visto não. O quê significa isso além de que eu não leio todos os jornais? Que o Repórter Esso ainda está no ar dando notícias que concorrerão ao Prêmio Exxon? Que a esquerda infiltrada na imprensa brasileira ainda recebe orientações de Moscou? Afinal a Rússia é um grande produtor de petróleo, vivem disso agora, para eles o único biocombustível que interessa é a base batatas tridistiladas, a vodka … O Blog Teorias é para isso… especular  e perguntar sempre… Por que ninguém fez estardalhaço com essa mudança de atitude ou estratégia? Não existe um Partido Verde no Brasil? Ah sim, aquele da evangélica… Tá bom… Coitadinha né…

4 – O aumento do consumo de alimentos proveniente dos países dos eternos países do futuro, os  emergentes… E logo quem… Temos nessa “emergência” toda, quase a metade da população planetária!!!  China, Índia, Brasil e Rússia… Dá quase 3 bilhões de emergentes querendo comer mais e melhor, uma colossal fome a ser zerada!!! Haja crediário!!! Haja água para tanto feijão!!! E aumento de demanda… além do fim de recursos naturais esgotáveis e renováveis significa o de sempre, aumento de preços…

O preços da alimentação nos EUA subiu muito pouco em função do perfil de consumo de comida dos americanos… Hamburguers e hot-dogs pesam só na balança, alguém poderia brincar… São alimentos altamente processados industrialmente, o que  sempre gera uma maior quantidade de oferta, muita competividade, etc… E os EUA é tradicionalmente um grande produtor de alimentos, não percamos nunca isso de vista. O fato é que, para não variar, a corda está estourando na mão dos mais fracos… Os alimentos estão começando a faltar na mesa dos mesmos famintos de sempre e há temores que haja muitas manifestações e revoltas ao longo desse ano. Pelo menos por enquanto, são eles que estão pagando o pato que os emergentes estão comendo a mais… O ditador da Tunísia fugiu hoje, abandonando um poder que usufruía a 23 anos… As manifestações eram também em função dos aumentos dos custos da alimentação… O mini presidente iraniano teve que retirar subsídios governamentais sobre alimentos e fortes reações tiveram que ser contidas com ameaças de muitas pedras…

Mas, das 4 causas apontadas apenas uma é persistente e preocupante. O preço dos combustíveis pode ser manobrado apertando-se um Rockfeller aqui, outro Faisal lá , o clima pode dar uma trégua (vamos ser otimistas, no Brasil não está faltando água… nem para a irrigação…) e os carros elétricos se tornarão uma realidade cotidiana, queiram ou não queiram, fazendo diminuir o uso dos biocombustíveis. A quarta causa que é o problema…

Como dizer para quase 3 bilhões de pessoas que se elas melhorarem um pouco mais de vida o mundo passa fome? Como irão se conformar que logo quando chega a vez deles o cofre da natureza já foi arrombado e a riqueza lá não dá mais para todos? Isso cheira a pólvora… ou a um brutal controle de natalidade.

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
Esse post foi publicado em Comentários Políticos, Economia, Política Internacional. Bookmark o link permanente.

Uma resposta para Mais Água no Feijão…

  1. fbarbuto disse:

    Canali,

    Mas de um controle de natalidade este nosso planetinha não escapa mesmo. Se não for por bem, será por mal. E é bom ressaltar que China e Índia não são grandes produtores líquidos de alimentos; o que produzem mal e mal dá para suas próprias populações explosivas. Em outras palavras, quando (e se) eles começarem a tirar a barriga da miséria e a comer à tripa-forra, será provavelmente mais às custas de quem produz do que deles mesmos.

    A Rússia tem população equilibrada: menos de 150 milhões num território que é o maior entre todos os países. Densidade populacional: um terço da do Brasil. Tem um grande e alvissareiro futuro pela frente, os russos, se souberem fazer as coisas direitinho.

    F.

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