Calcanhar de Aquiles Sem Tratamento

Tudo de Mentirinha

O que é mais absurdo? Uma sociedade que não garante o emprego e lhe exige que você compre algo ou uma sociedade que gasta trilhões com armamentos e não dá alternativas de tratamento a quem adquiriu ou nasceu com uma doença crônica e custosa de ser tratada ou cuidada?

A ganância desavergonhada de poucos e a burrice de muitos força essa e outras situações ridículas pelas quais passa os EUA, que, em pleno século XXI, não possui um plano universal de saúde gerido pelo estado, como a maioria esmagadora dos outros países do planeta, que logo descobriram que o estado organizado não vale a pena existir, caso não providencie saúde, educação e segurança, mesmo que de forma básica, às pessoas que o compõe.

Ninguém nesse país consegue responder – até porque ninguém pergunta – porque acham que educação e segurança pode ser dada pelo estado e saúde não. Será que é alguma idéia fanática de que doenças são castigos do perverso deus que imaginam existir e que não se deve então interferir com a vontade que seria divina? Como ganância de meia-duzia consegue impor sua vontade a centena de milhões de indivíduos, sem que tenham um único argumento valido ou razoável a seu favor?! Certamente aí que está o milagre!

Um juiz posto no cargo por Bush, um republicano, deu parecer de inconstitucionalidade a obrigação de que cada americano tenha um seguro de saúde a partir de 2014. Inviabiliza um péssimo acordo, mas aquele que foi possível para que as companhias de seguro de saúde fossem obrigadas a não mais rejeitar seguro para pessoas com doenças pré-existentes e de caro tratamento. Não foi possível fazer uma rede pública de atendimento médico-hospitalar, então a saída foi negociar acordos espúrios como esse, na base do melhor isso do que nada… mesmo com maioria no senado e na câmara, o que prova que fidelidade partidária é tão relativa quanto a honestidade dos políticos.

Ainda haverá luta em relação a essa decisão, todavia, é mais um desgaste para Obama… que vai ter que “chutar o pau da barraca” em algum momento, usar seus super powers de presidente e falar grosso de verdade um dia… O fantasma da administração Carter anda pelos jardins da Casa Branca.

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
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4 respostas para Calcanhar de Aquiles Sem Tratamento

  1. fbarbuto disse:

    A quantidade de seriados americanos envolvendo medicina e hospitais (Dr. Kildare, ER, Ben Casey, etc) já pode ser debitado na conta dos traumas e medos (in)conscientes que os americanos devem ter com a sua saúde. Não vejo outra explicação…

    Enfim, ambição é o que move a sociedade americana, então a coisa toda até que faz muito sentido.

    F.

  2. João Canali disse:

    Vou além Fausto, os preços exorbitantes e a atitude comercial de pura ganância da medicina universalmente privatizada americana são o melhor remédio contra a maior de todas as doenças… a hiponcondria. O camarada pensa duas vezes antes de reclamar do “dodói”… Aquele reflexo remanescente do recebimento de atenção e carinho dos pais após um acontecimento doloroso é dissipado pelo tio Bill, a conta que recebe depois de um atendimento médico por aqui. Mesmo com seguro, tem um tal de co-payment nos atendimentos de emergência que já é suficiente para o cara querer aprender a costurar e assim tratar da mordida do cachorro.

    Mas, se é a ambição (por ter como consumir mais) que move o sistema, porque então a forma de pagar indiretamente (impostos) o guarda e a professora não se estendeu ao médico, onde a forma de pagamento é sentidamente de forma direta e muitas vezes impossibilitante?

    Calculam que 45.000 pessoal morram anualmente nos EUA por falta de seguro ou dinheiro para pagar um tratamento médico adequado. Não seria melhor ficar com 45000 crianças sem escola ou haver 45000 assaltos a mais nas ruas na estatística anual? Mas, a própria pergunta se responde, você tem razão, a ameaça de morrer é mais forte, logo possui mais força de coação para fazer o cara pagar… Um pensamento digno de um gangster ganancioso… O que me espanta é que a maioria esmagadora não se beneficia dessa ganancia e ela que decidiria por ser diferente… diferente não, igual a solução encontrada pela maioria dos outros povos do planeta. O que me faz pensar que talvez a grande doença não seja a hipocondria, mas, outrossim, a burrice dessa gente… Ou quem sabe não estariam resolvendo a questão demográfica e da miséria dessa forma… não tem dinheiro, morre.

    Talvez falte um ditado na cultura norte-americana que esclareceria para eles mesmos como é que metade mais um deles pensam… Pepper in someone else’s ass, doesn’t burn…

  3. fbarbuto disse:

    Canali,

    Talvez ao americano branco bona fide, aquele com stars and stripes no seu coração, doa mais constatar que um sistema universal público de saúde, por sua própria definição, terá que atender também os imigrantes legais ou não, isto é, aquela gentalha sem a qual os EUA ou não funcionam ou funcionarão mal mas que são malquistos. Em outras palavras, John Smith não quer colocar azeitona na empadinha de Ramón Hernández, e se não por ódio ou preconceito, simplesmente por acreditar que seu quinhão nos impostos que irão para o sustento desta saúde universal será maior do que os de Hernández, Suárez, Herrera e outros hispanics. Claro que isto é só uma interpretação preconceituosa minha… O americano não pode ser tão burro assim…

    Uma interpretação mais lógica é que o americano médio (e aí entram todos) não consegue acreditar que uma saúde pública pode ser boa, afinal ela é boa porque é cara (a diferença entre o Trabant e o Porsche) e são estes custos altos os que colocam os EUA na vanguarda da pesquisa em Medicina no mundo (é fraca a ligação entre causa e efeito, eu sei disso, mas novamente estou apenas tentando interpretar o que vai na cachola de alguém que veja justificativas para a existência e manutenção de um sistema assim). “Paga-se caro, mas é medicina de ponta. É um assalto, mas num hospital privado eu posso reclamar, afinal estou pagando — já num público, o que esperar? Trata-se de um furto qualificado sem dúvida, mas cria um funil virtuoso que faz com que só os melhores e mais preparados consigam seguir a carreira, e isto depois de pagar universidades que também não são nada baratas…”. Seriam estas justificativas que ecoam nos corações e mentes yankees?

    F.

    • João Canali disse:

      Você tocou nas duas recorrentes burrices…

      Mas, vamos tentar compreender antes da condenação, que nesse caso é certa…

      Esqueçamos individuos capazes de pensamentos filosoficamente ou politicamente mais elevados. Esqueçamos mesmo que esse indivíduo foi lavado cuturalmente dentro do pensamento protestante com uma ética firme em relação a sacralização do trabalho e que qualquer fato mais complexo, para eles, é de competência de um deus inexistente. Esqueçamos que exista uma herança cultural e histórica que por si o deixa social, racial e étnicamente preconceituoso. O que ele vê no seu dia-a-dia? Que negros e “brownies” hispânicos são o rosto do crime, que são os habitantes das áreas que ele deixa de poder habitar em momentos de crise financeira ou que desvalorizam sua vizinhança, que tornam desqualificante o ambiente de trabalho mais simples que ele normalmente ocupava em momentos igualmente de crise (pois no fundo sua qualificação humana e profissional é baixa), que tornam determinados bairros de sua cidade quase que pedaços de outro país, que o agridem de diversas formas com seus hábitos e gostos culturais diferentes … e por aí vai… Esse cara vê essa turma como seus inimigos, se ele pudesse expulsava-os a todos… Esse cara não concorda de ver seus impostos aumentados para que essa “gentalha” tenha acesso gratuito a saúde… Ele fica tão cego com essa situação – lembremos aqui que é muito mais fácil odiar do que amar, como já dizia Hitler em “Minha Luta” – que deixa de ver que muito mais da metade daquela “gentalha” está integrada ao sistema cultural local e que aqueles que o incomodam também incomodam a eles… Deixa de ver que um sistema de saúde universal serviria a ele também… Notemos aqui que o momento que Obama e as forças democráticas escolheram para lançar uma tentativa de reforma da saúde foi em um momento de crise, propício para que o cara se “tocasse” que ele também poderia se beneficiar de uma reforma…

      Passemos ao caso dois, antes de darmos um veredito que qualifica o crime de burrice para ambos…

      Que medicina moderna é essa? Só se o paciente nunca tiver sido tratado antes por médicos da espécie humana (picardia)… O Dr. Marcus Welby (que também era o Papai Sabe Tudo), o Dr. Kildare, O Dr. Ben Casey são ficções, talvez para mostrar como o cara que tem que, “profissionalmente”, se habituar com a morte para se manter emocionalmente, continue sendo normal… Mas, esqueçamos os fatores culturais envolvidos… O que apresentam de grande descobertas demoram décadas para serem acessíveis a um milionário, o que dizer então para um Regular da Silva… Isso está cheio de marketing… Sorte terá o cara que for tratado como cobaia para um novo tratamento que dê certo… Seguros privados tem limites facilmente atingíveis e se recusam (isso que estão tentando mudar na verdade, o único de concreto e efetivo que mudarão…) a dar seguro a casos onde sabem que vão perder dinheiro. Esse sujeito que se acha o rei da cocada preta porque a companhia onde trabalha lhe paga o seguro caro é um saudável desinformado. Ele em tese está topando correr o risco de se salvar de uma doença complicada pela medicina “mais moderna do mundo” em troca de sua falência pessoal e de tudo que planejou construir para sua família… Mas vivo ficaria, seria seu argumento final de besta que acha que não pode ser despedido ou ir mau nos negócios… Ok, ele é o dono da companhia de seguro e médico formado… ou pior, almeja ser e haje por conta… ele pertence a nomenclatura plutocrata da nação e o dele está garantido… o único problema aí é que ele é minoria absoluta… a cabeça de Luiz XVI está rolando até hoje…

      Mas, o argumento que derruba ambos os casos não foi elaborado por mim, mas por alguém que sabiamente escreveu para Smithsonian Magazine um artigo, entre outros artigos otimistas para o futuro do país, que aponta justamente a questão da alta taxa de imigração americana como um fator de equilíbrio financeiro que permitirá o país pagar suas aposentadorias em futuro próximo. Ele lembra que a relação entre gente trabalhando e aposentados está totalmente arrebentada na maioria dos países (lembremos o recente quebra pau na França em função do governo querer aumentar o tempo de aposentaria em 2 anos… justamente por conta da projeção de um desequilibrio…), inclusive, na insuspeita China, com aquela montanha de gente… Segundo o autor, será justamente os imigrantes hispânicos ou não que sustentarão boa parte da aposentadoria já dos Baby Boomers (nós)…

      Contudo, estamos falando da dificuldade de pensamentos absolutamente corretos serem divulgados e aceitos… Isso é outro problema, talvez o maior de todos…

      Se os dois tipos de burros fossem lembrados que uma medicina universal garantiria a força de trabalho que lhes pagaria a aposentadoria… Eles se sentiriam “espertos” e em vantagem nessa questão da imigração e da medicina universal… Mas, “falar na lata” nesse país encontra uma séria dificuldade cultural, é muita fantasia nacionalista e mentira junta, as verdades mais cruas parecem ofender e machucar os neurônios dos burros.

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