Dois Bandidos Alentejanos

FLA X FLU

RIO – Dois homens armados tentaram invadir, noite passada, um quartel do Exército na Vila Militar, em Deodoro, na Zona Oeste do Rio. Um soldado que estava na guarita reagiu heroicamente e trocou tiros com os dois meliantes que, antes de fugirem, o acertaram 4 vezes na perna, felizmente não o matando… eu morro de pena só de imaginar que possa ser um desses infelizes que prestam serviço militar obrigatório por falta de perspectiva na vida miserável que levam ou porque foram obrigados mesmo…

Os cerca de 800 soldados que participaram do cerco ao Complexo do Alemão no dia da tomada do “Monte Castelo Carioca”, em 29 de novembro passado, em sua maioria, estão lotados nesse mesmo quartel onde ocorreu essa tentativa de invasão, que a polícia acredita ter sido motivada pela intenção de roubar armamentos.

O que pode ser visto como um ato isolado e sem nenhuma importância dentro do cotidiano de violências criminais que ocorrem no super-lotado Rio de Janeiro, nos dá conteúdo para questionamentos e hipóteses bastante interessantes. Se não vejamos…

Hipótese Um: Bandidos são bandidos porque não foram a escola (o que lembra aquela clássica resposta ao anúncio do policial que se anuncia…), logo, são semi-analfabetos que não lêem os jornais, não prestam a atenção nos tele-jornais ou só escutem músicas de má qualidade nas rádios… enfim, desinformados e alienados do mundo ao seu redor… Como é que vão se arriscar a tentar invadir um quartel do exército “vitorioso” em meio a toda essa guerra!?  Necessariamente seria o pior momento para isso! Somente dois elementos contra um quartel?! Querendo entrar pé-ante-pé sorrateiramente (rendendo “apenas” o cara da guarita) sem acordar a tropa que possivelmente dorme na caserna?! Para carregar quantos fuzis para valer esse risco?! Ora pois, pois… Será que foram importados do Alentejo e o bandido brasileiro da piada lhes disse para irem lá que era “moleza”? Estavam doidões, claro… Maus comerciantes que consumiram toda a mercadoria que tinham para vender… Cocaina dá uma coragem que só acomete ao mais equivocado dos “intelejumentos” !!!

Hipótese Dois: Foi um desafio, uma provocação, um repto para mostrar que o tal do Comando Vermelho (que por motivos estratégicos de mídia é tratado agora apenas como “facção”) não foi vencido na verdade e que agora se dedica a uma atuação típica de guerrilha de resistência… algo como os maquis franceses ou os vietcongs da malfadada guerra do Vietnã.

Hipótese Três: A polícia está muito longe de acabar com a insana criminalidade do Rio de Janeiro. Que o quê nos foi mostrado como uma grande operação de guerra foi apenas uma melancólica pantomima de uma realidade inexistente, algo como uma CPI do congresso que sempre termina em pizza.

O problema que vejo nisso tudo é que a mídia carioca e nacional se envolveu no esforço efetuado de uma maneira cívica e não crítica. Ela se postou ao lado do “bem” como não poderia deixar de ser, já que a criminalidade é talvez a pior das doenças brasileiras em suposto tratamento. Algo que sempre foi tratada pela inteligência nacional, a direita e a esquerda, como “efeito”, mas que, na verdade, já passou a ser mais “causa” do que outra coisa qualquer. E então, a cobertura estatística do esforço efetuado corre o risco de ser  mal feito, assim como torcedores do time beneficiado tende a não falar do lance polêmico que decidiu a partida a seu favor.

Quem, numa cidade grande como o Rio de Janeiro, pode dizer se a criminalidade diminuiu, aumentou ou permaneceu igual  após as operações que foram efetuadas para preparar a cidade para as grandes festas internacionais que estão para acontecer na cidade ou se a fórmula encontrada de se colocar pequenos quartéis da polícia militar (as tais UPPs) ao lado do esconderijo moradia do suposto bandido funcionou ou não? A mídia claro. Mas se ela estiver engajada na tola idéia de o que vale é a percepção segurança/insegurança ditada por ela? Confiar nas estatísticas oficiais das delegacias já sabemos que é falho, pois a maioria das pessoas não perde tempo em reportar crimes, só o fazendo em função de hospitalizações e do seguro, quando esse existe.

Será que estamos diante de um caso raro ou único no mundo em que um filme (o Tropa de Elite 2) modificou o pensamento da população em relação a polícia? Será que descobrimos a pólvora? Que é por isso que existem tantos filmes de Hollywood, enlatados ou não, que glorificam a ação da polícia? Deu certo para Tio Sam…

De concreto o que temos é que assistimos uma ação coordenada de mídia (jornalística e de ficção) com a polícia, depois das eleições que me pareceu algo planejado com meses de antecedência, até o helicóptero da Globo teve sua posição marcada no cenário… Só me falta responder quem foi que ateou fogo nos carros durante a semana que antecedeu a tomada do “Monte Castelo” pelas tropas do Marechal Mascarenhas de Moraes, digo, pelas tropas do Coronel Nascimento… Ah… Os bandidos também esperaram as eleições passarem… Também eram extras e figurantes da mesma grande produção… Ok, me engana que eu gosto… aí tem…

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Sobre João Canali

Jornalista brasileiro e norte-americano residente em Miami, produtor e apresentador do Seriado Teorias (You Tube).
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9 respostas para Dois Bandidos Alentejanos

  1. fbarbuto disse:

    Canali,

    Acredito na Hipótese Três. Se foram precisos as duas polícias (civil e militar) mais duas das três forças armadas, Marinha e Exército (e suas pontas-de-lança de projeção de ataque, os Fuzileiros e os Para-quedistas) pra dominar a situação, é sinal de que as coisas vão mal e, se juntos ainda conseguem vitórias, separados e desmobilizados estas forças “do bem” (sabemos que não é 100% assim, mas…) são presas fáceis para a galera do mal.

    Eu fico aqui pensando qual será o futuro do crime organizado no Rio, caso as autoridades cariocas não estejam apenas jogando para a torcida e o desalojamento do tráfico dos morros cariocas seja mesmo para valer. Todo aquele know-how, aqueles MBAs em Crime Organizado e Táticas de Guerrilha, onde serão usados? Inocência acreditar que eles passarão a se dedicar a uma vida honesta. O que virá por aí? Ondas de sequestros? Assaltos a banco? Extorsão? Arrastões? Ou eles se mudarão para outras cidades, recomeçando do zero? Essa para mim é a grande questão: o que estará reservado para o carioca no médio e longo prazo?

    F.

    • João Canali disse:

      Fausto, eu vi na TV as imagens do que foi atacado. Era uma guarita isolada guardando um perímetro cercado por arames farpados e muros baixos e vazados, teriam na verdade entrado por um ponto aberto na cerca ou no muro, não ficou claro. Segundo o porta-voz do Batalhão, o objetivo era o de roubar o fuzil-metralhadora do soldado da guarita, que, segundo ele, está valendo um bom dinheiro, principalmente, depois da quantidade de armas apreendidas nas operações no Complexo do Alemão. Eles as usam mais contra quadrilhas rivais do ponto de venda do que contra a polícia ou para assaltos. Dois bandidos às 4:30 da matina que acharam que poderiam surpreender um único guarda em um local ermo e isolado do prédio do quartel, propriamente dito. Mantenho a qualidade alentejana porque se deram mal, o rapaz não estava cochilando (como provavelmente eu estaria) e disparou 13 tiros contra os bandidos… O contraditório aí é que com a arma cobiçada não atingiu os bandidos, que, por sua vez lhes atingiram 4 vezes na perna… Mas, teria que haver uma explanação melhor do ocorrido para podermos fazer uma avaliação mais acurada do embate. Durante a invasão do dito complexo foram relatados tantos casos de desvios de droga, armas “perdidas” e furtos de moradores, envolvendo tanto policiais das duas polícias e militares, que podemos até montar uma quarta hipótese… Os bandidos foram lá para simular um assalto e não levaram o combinado em espécie ou encontraram o soldado errado, que não estava no plano, havendo então uma troca de tiros…

      Mas de fato, a terceira hipótese, até por ser genérica, trás o senso comum… Está na cara que a criminalidade está longe de ser controlada no Rio de Janeiro. Seria um caso de mágica se em apenas uma operação na Caverna do Ali Babá acabassem com uma bandidagem que tem se formado por décadas a fio de má gestão de segurança pública, para não falarmos das ridículas leis penais brasileiras e de um sistema judiciário totalmente incapaz de atender as necessidades da cidade, município, estado e federação. Uma das tragédias específicas do Rio, devido a sua geografia e forma como foi ocupado é que o crime está espalhado, você tem uma ou mais favelas servindo cada área de classe-média ou rica, áreas produtivas e/ou turísticas. Em praticamente todas as grandes cidades grandes do mundo você tem os bairros barra-pesada onde o crime é contido ou pode ser castigado (aí é que está) quando a criminalidade incomoda além da conta. O tráfico é um grande negócio que tende a não se deixar incomodar por meliantes que praticam os crimes de rua que incomodam a população… Temos uma lógica meramente comercial aí… O assalariado assaltado não terá dinheiro para a mesada do filho que consome a droga… Antigamente, quando o jogo do bicho era o que mais dava dinheiro, era sabido que os locais mais seguros eram em torno dos pontos de bicho… Se uma determinada área começava a ficar infestada de assaltos a policia dava batidas em alguns pontos de bicho e o banqueiro que comandava o jogo na região se encarregavam de fazer a limpa… Claro que falo de uma situação específica do Rio, mas, de uma maneira ou de outra, a humanidade tem convivido com uma parcela da população que não obedece as leis, ou que sobrevive a sombra de leis mal formuladas… enfim, sempre teremos mercados negros atendendo o que governantes plutocratas ou estatocratas tentam controlar por interesses nem sempre muito claros, que sempre se resumem em aumentar ou manter o poder que possuem. Correm por fora os desequilibrados mentais (coisa inerente a condição humana, estatisticamente falando) que se confundem com os demais frutos dos desajustes na distribuição de oportunidades sociais.

      No entanto, eu reputo que o principal problema, principalmente no Rio, é o da super-lotação. Sou totalmente cético quanto a possibilidade da cidade ter uma segurança razoável que chega. As tais UPPs vão ser cooptadas pelo tráfico ou outra forma de criminalidade que substitua isso, assim como as delegacias de bairro antigamente eram cooptadas pelo jogo do bicho. Eventualmente, se conseguirá períodos de relativa calma para a realização de grandes festas, mas a solução só haverá com um investimento colossal de transferência de populações para cidades modelos construídas em outros estados, ou controle demográfico, aborto totalmente liberado e políticas de incentivo a migração interna… Os primeiros passos seriam a remoção das favelas coladas as áreas ricas, turísticas e produtivas (imagina se existe coragem política para isso em uma democracia como a brasileira!!!), uma reforma geral no código penal, investimentos pesados no sistema judiciário…

      Não existe a possibilidade de se criar empregos suficientes e de boa qualidade de remuneração para o atual contingente humano do Rio de Janeiro, iniciando-se assim um ciclo virtuoso qualquer que faça que as favelas se transformem em bairros populares de boa estrutura auto-sustentável (impostos) sem que com isso você não interfira de forma violenta com o meio ambiente, os transportes, enfim, com a qualidade de vida que atrai o turismo, a grande vocação da cidade… E, mesmo que isso fosse possível, esse aumento de empregos e salários iria continuar atraindo gente de outros estados mais pobres como aconteceu em maior número no passado, anulando assim qualquer avanço!!! Essas Olimpíadas vai trazer mais toneladas de carne fresca e humana para o Rio… uma sequela que não compensará…

      E estou falando nesse momento onde a economia parece ir bem… Qualquer estouro de bolha de crédito (desse grande “esquema de Ponzi piramidal” que fizeram) esses sonhos de verão que mencionei seriam mais utópicos ainda.

      Voltando a realidade do noticiário atual. O grande perigo dessa ofensiva que ora fazem (tem gente que jura de pé junto que é apenas preparativo para a Copa e as Olimpíadas, que as tais UPPs são apenas um cerco paliativo…) é criar o falso clima de segurança para quem só pode se basear nos noticiários… Trata-se de uma sinuca de bico, a mídia não pode ficar contra, mas ao ficar a favor passa a ocultar a verdade, sempre foi assim….

      Deixa eu me usar de modelo da minha paródia… Aí eu pego o meu avião (depois que fiquei 19 horas sem fumar dentro de uma coisa dessas indo prá China, encarei ir a São Paulo como quem pega um ônibus aqui de minha nova moradia e vai a Miami Dowtown, fazendo uma baldeação no Aventura Mall… nunca fiz, mas sei que seria chato e demorado, mas sei que aguento…) e vou fagueiro comer um sundae no Cirandinha… Dar uma de velho babão com a mulherada na Av. Copacabana, etc… E de repente me sai um tiroteio da porra porque estão perseguindo um crioulinho que assaltou uma confecção no prédio ao lado e eu fico borrado (com sorte apenas com o material do dois… borrado de sangue é pior…) no meio da rua a dez mil quilômetros da minha casa… Bicho… A armadilha da falsa segurança é a pior de todas… Você fala com gente que mora no Rio e sempre escuta a mesma historia… “Não é bem assim, melhorou muito…” Eu acho que é uma espécie de vergonha… Ou querem apenas lhe sacanear, lhe chamar de covarde… Só pode ser… A mídia regional do Rio vai acabar fazendo isso por solidariedade e/ou interesse, dá na mesma…

  2. cesarbarroso disse:

    Eu acho que enquanto essas pessoas não forem trancafiadas PARA SEMPRE, sem celulares, com um mínimo de visitas, com penas pesadas para os que tentarem os ajudar em ações criminosas, isso só tende a piorar.

    • João Canali disse:

      Cesar, de fato, essa brandura das leis penais brasileiras, obviamente tem contribuído para o alarmante quadro criminal brasileiro (não só do Rio de Janeiro que possui problemas específicos).

      A quem pense como o Tiririca… ou seja, que pior não fica… Mas, ontem mesmo estava lendo uma matéria que dava conta da violência no México que alerta para o fato de que pode ficar muito pior sim… E olha que o petróleo deles é bem acima do pré-sal… e chega rapidinho na goela dos viciados em petróleo. Um tráfico perfeitamente legal e igualmente milionário…

      Tenho muito receio de incentivar ou ser partidário a um sentimento de vigilante linchador (no México isso está se tornando moda… não melícias de exploradores cobradores de pedágio e tarifas ilegais, mas, o povo em carne e osso, sem pseudo-representantes, saindo nas ruas para enforcar bandidos…). Contudo, acredito que a mudança que mais surtiria efeito seria em relação a maneira como o povo brasileiro encara o problema da criminalidade.

      1 – A criminalidade é o pior problema brasileiro, pior que o problema da educação e da saúde. Gera mais vítimas e prejuízos (uma ocasião um desses bons brasileiros que nos faz sentir orgulho da camisa canarinho, um economista, se deu ao trabalho de fazer as contas do que se perde com a criminalidade… Uma insuspeita barbaridade…). Não adianta aumentar o salário da professora e treiná-la adequadamente se na sala de aula tiver elementos oriundos de uma sociedade onde a criminalidade é impune… A insegurança gerada pelo convívio cotidiano com bandidos estraga o tecido social de tal forma que o próprio aprendizado escolar se torna ineficiente. Se os hospitais brasileiros se vissem livres da metade dos atendimentos gerados pela criminalidade, teria-se uma melhora substancial dos outros tipos de atendimento. A impunidade criminal incentiva uma indisciplina social que anda em paralelo com a mesma, como vemos na absurda quantidade de acidentes fatais no trânsito… No fundo, evidente, fruto de um desrespeito as leis de trânsito. Autoridades que não prendem bandidos e quando os prende os solta em pouco tempo, não é ou merece ser respeitada. O próprio policial se deixa corromper nesse ambiente de desrespeito geral em função da impunidade.

      2 – Sempre que se fala de criminalidade, esta assume ares de ser o “meio da vingança”, a esquerdaloide síndrome de Robin Hood… Entretanto, admitindo que o IDH baixo nasceu primeiro que a criminalidade, isso não impede que a criminalidade hoje seja a maior parideira de baixo IDH. Isso tem que ser assumido. O médico para operar tem que cortar, ninguém foge disso. Atingimos um patamar que se o IDH for elevado, a criminalidade cresce de forma proporcional, anulando o elogiável esforço efetuado.

      3- A primeira atitude em qualquer recuperação (e o Brasil tem muito o que recuperar ainda) é limpar o ambiente de trabalho…

      Será que não estão varrendo a sujeira para debaixo do tapete no caso do Rio de Janeiro? Afinal essa tem sido a norma…

      Tem que haver um esforço integrado de toda a nação para uma profunda reforma nas leis que devem ser focadas contra os crimes onde a violência física esteja presente. Digo isso porque existe uma demagogia barata que equaliza crimes financeiros ou contra o patrimônio com crimes onde houve violência, isso é burro… aquela coisa do colarinho branco contra o azul… o rico das “zelites” que não passa no buraco da agulha dos portais que protegiam Jerusalém dos viajantes deserto… da velha e boa duana… É claro que tem que ser punido o coronel sarnelento safado, dos tantos escravocratas que existem… mas para efeito de exemplo social o cara que fere e mata tem que ser punido mais rigorosamente do que aquele outro que só usou a saliva ou o voto de cabresto… pouco importa que o dano do colarinho branco atinja mais pessoas, o povo sabe que dinheiro se recupera, a vida não. Esse senso comum tem que ser respeitado e não aviltado em função de demagogias ideológicas.

      O Brasil necessitaria de um regime de exceção para combater a criminalidade como deveria? O problema é tão grave que a pergunta compete, sim. Eu palpitaria que a resposta definitiva só poderia ser dada depois de se tentar dar a devida prioridade a questão, o que, apesar de toda essa louca insegurança pública, ainda de fato não ocorreu.

  3. cesarbarroso disse:

    João,
    Regime de exceção não resolveu esse problema no passado, não resolveria agora. Poderiam vir com essa conversa, mas depois caem na corrupção de sempre, ainda mais porque regime de exceção não tem supervisão externa.
    Acho que há uma questão escondida nisso tudo que escapa a mim e a você, que não moramos mais lá. Há um sentimento de inevitabilidade que nos escapa, e também um sentimento de invulnerabilidade, por parte daqueles que nunca forma assaltados, ou vítimas de outros tipos de violência. A grande maioria das pessoas que moram lá que conheço, nunca foram assaltadas, e acham que irão continuar assim para sempre(eu espero que sim!).
    Eu sofri um assalto traumático em 1989, do qual nunca me recuperei. Como já lhe contei, fiquei por uns 20 minutos dentro do carro sob a mira de um revólver. Desenvolvi síndrome de pânico, que só aqui em Miami acabou. Não quero nunca mais morar no Rio de Janeiro. Para mim, não faz o menor sentido, podendo morar em Miami, voltar para o Rio de Janeiro. Essa questão de segurança, para mim, tornou-se um ítem básico e primordial.

  4. Max Dias disse:

    Muito bem desenvolvidas as teses sobre os bandidos e suas forças ditas contrárias, no caso três forças, uma vigiando mais a outra do que o inimigo. Não é uma questão de armamento, é claro – nesse quesito não há nenhuma esperança aos pés-de-havaiana. Se encarado como problema isolado, nada é mais fácil do que acabar com crime “organizado” das favelas. Mas uma tese incrível de que tudo isso foi provocado pela juíza sapatona ao acabar com os donos do jogo do bicho. Segundo alguns “intelectuais”, eram esses cidadãos os verdadeiros indutores da harmonia e felicidade geral, ao serem patronos oficiais de boa parte do circo da avenida e seus desfiles mirabolantes, além de outras firulas dentro da comunidade, que beijava sua mão, agradecida. A tese, também mirabolante, diz que, ao acabar com os bicheiros, a sra.dona juiza acabou com a pax romana administrada com eficiente energia por estes pró-consules de terno de linho branco. E no vácuo desse poder, cresceu o crime “organizado”, na verdade um grande caos armado perto da ordem seráfica proporcionada pelos insignes bicheiros, estes sim cidadãos de respeito, retidão e organização. Acredite se quiser.

    Já a reação de todo individuo durante um assalto é querer acreditar que existe alguma coisa de bom no facínora que o ameaça, na esperança de que seja poupado. Quando por acaso é preso, o meliante é tratado com todo respeito que merece, pois afinal sem ele não existiriam juizes, delegados ou carcereiros. Silogismo muito simples: o crime sempre antecedeu o castigo, portanto o castigo deve sua existencia ao crime, e é nesse momento que ele se transforma em “reabilitação”, um estado de benesses judiciárias que dá pensão à familia do preso (a familia da vítima que se dane), quentinhas suculentas, visita conjugal, indulto de natal, prisão domiciliar &C,&C. Claro que as penitenciárias são reproduções do que se pensa sobre o inferno, mas quem faz isso são os próprios internos. O importante é que a sociedade não castiga seus transgressores, mas os reabilita, para isso gastando, hoje, mais de quatro mil reais por cabeça prisioneira. O cidadão comum, em cronico estado de pavor, mal sai da sua casa rodeada de grades e alarmes, sonha com seu veículo blindado, e agradece a Deus todos os dias ao chegar em casa incólume e encontrar tudo bem. A industria das grades, dos alarmes, das blindagens, dos seguros exorbitantes, a laboriosa classe dos seguranças, todos eles agradecem mais ainda a existencia do crime e de tantos cordeiros prontos a entregar sua lã em nome de uma proteção pela qual já pagou inúmeras vezes em cada gesto que faz no seu trabalho e atividade. Cordeiros cruzados com avestruzes, preferimos achar que o crime não existe, que a droga não é problema, que todos os policiais são heróis do que se dar ao verdadeiro trabalho de erradicar a miséria moral, pela educação. Há uma patrulha permanente contra essa atitude, e fossem os dirigentes atuais do país “do outro lado da bancada”, estariamos assistindo o desfile de alertas alarmados sobre onde vai parar a escalada das forças armadas dentro do seio da indefesa sociedade… A pergunta permanece, infelizmente. O que acontecerá da próxima vez?

    • João Canali disse:

      Max, como sempre excelente… Mas, ao lembrarmos da educação como salvação óbvia, encontramos o problema da prioridade, damos um pretexto as antas para nada fazerem a não ser esperar o dia que o país ganhará muito dinheiro com moralizações da administração (fim da corrupção), pró-alcool, pré-sal, exportações de comida e até água para um mundo faminto e sedento ou qualquer outra lotérica utopia, quando então, poderá pagar bem professores e ter um ensino de qualidade. A questão da prioridade, do que nasce primeiro é fundamental, estamos sendo iludidos por uma “causa principal” que já foi “efeito secundário” a muito tempo atrás, quando era apenas um “bebê mazela”.

      O que sempre irrita é que das autoridades brasileiras (vamos imaginar que isso exista no sentido literal da responsabilidade e capacidade que o título implica… há sérias controvérsias quanto essa nomeação…) não sai nada inovador, estão sempre repetindo fórmulas fracassadas ou imitando sucessos que só aconteceram em função de uma regionalidade específica (as tais UPPs que estão tentando nas favelas cariocas foram idealizadas com assessoria de colombianos que as implantaram nas favelas, igualmente montanhosas, de Medellin… inclusive os teleféricos… o que se esquecem, no entanto, é que Medellin localiza-se a 1520 metros de altitude e faz um frio desgraçado… os barracos de lá são necessariamente muito mais urbanizáveis que os do Rio, caso contrário teriam morrido de frio a muito tempo atrás… e as diferenças obviamente não ficam por aí… foi só para exemplificar…).

      Nessa questão do “dimenor”, do estatuto do menor, que já provou o quanto equivocada e perigosa tem sido, seria possível obtermos um meio termo na questão e que até teria todo o apelo populista que as “ortoridades” tanto gostam. Partindo da premissa que todos aceitam de que a educação é a saída, que tal a sugestão que a pena fosse transformada em escolaridade? Só sairá do sistema fechado aquele que completar os cursos escolares básicos, secundários, profissionalizantes e bachalerato para os que cometeram crimes mais graves. Resumindo, o menor que matou, só sairia da instituição prisional quando e se completasse uma formatura de nível universitário, o que roubou o profissionalizante e assim por diante, sendo que o secundário seria exigido de todos. Investiria-se em universidades presídio, simples assim. Se for rebelde, não quiser estudar e for reprovado permanece preso até completar o total de sua pena que se corresponderia então a que um adulto pegaria pelo mesmo crime, sem direito a tal da progressão de pena (esse absurdo que solta assassinos nas ruas após o cumprimento de 1/6 de penas que já são brandas, se comparadas com as de outros países). Estaríamos então falando de reabilitação, ou chance de reabilitação… Não essa presepada de atingir a maioridade e liberar o elemento que foi formado pela escola da criminalidade. Posso estar sendo ingênuo ou estar apresentando uma proposta inexequível (já que não dão prioridade a segurança) mas eu quero exemplificar propostas que seriam inovadoras… Existe uma espécie de bloqueio na cultura brasileira em relação a inovação e isso se manifesta em quase praticamente todos os níveis da sociedade… Você deve se lembrar que cheguei a cogitar que isso teria sido em função do suicídio do Santos Dumont, o brasileiro que mais inovou (bom, no fim ele usou as gravatas vermelhas de estimação que tanto sucesso fizeram em Paris… não inovou muito, foi só eficiente como sempre…) que talvez tivesse criado uma espécie de trauma na cultura nacional… uma teoria louca e descabida (a informação no Brasil, considerando os períodos envolvidos, não circulava de maneira tão eficiente a ponto de criar-se uma marca cultural desse porte…), reconheço, mas, que bem simboliza a questão.

      Sim, é claro, há tantos que ganham com a criminalidade, que buscar outra explicação longe disso é meio que perda de tempo. Contudo, acredito que se aparecer um movimento com as características do “Ficha Limpa” (parlamentares lutando por prestígios e pegando assinaturas em cima do óbvio) e conseguirem pegar a criminalidade em algum ponto fraco ou definidor, o milagre pode acontecer.

      • Cesar Barroso disse:

        “…Resumindo, o menor que matou, só sairia da instituição prisional quando e se completasse uma formatura de nível universitário, o que roubou o profissionalizante e assim por diante, sendo que o secundário seria exigido de todos…”

        João,
        A “elite” carioca odiaria isso. Os filhos deles sofreriam concorrência no concurso para a Petrobrás. Você não lembra a reação às cotas? Tudo que sirva para aumentar o nível educacional da população sofre oposição da “elite” carioca.

      • João Canali disse:

        Em outras regiões do Brasil pode até ser que houvesse uma reação do tipo que você sugere, afinal estou falando de uma sugestão de aplicação nacional. No interior do nordeste, por exemplo, onde ainda impera o baronato, onde a/o filho/a do “coroné” é que vai administrar o conveniado do SUS local porque somente ele que estuda na “capitá” e se torna “dotô” haveria reação contrária… O argumento (coloque o devido sotaque para ter todas as cores…) seria do tipo… “Imagine, dar pros bandidos (no caso, o menor infrator) uma educação que os filhos honestos de gente honesta (o colono da fazenda do “coroné” que trabalha ainda no sistema de servidão) não conseguem pagar… Vai acabar sendo negócio aos 17 anos passar a peixeira num cabra e ficar esperando a polícia para ter chance de entrar em uma universidade… e pode até ser burro e ficar repetindo de ano, sem a pressão da família para ir trabalhar…”

        No Rio, muito pelo contrário, impera muita demagogia em relação aos marginais, existe até uma espécie de sentimento de culpa, a condição de favelado coitadinho, de afro-negro proto-pagodeiro da escola de samba oprimido se confunde com a condição de fora-da-lei. A primeira coisa que as “elites” saídas do surf e da maconha (no bom sentido claro) aprendem nas universidades de professores invariavelmente de ideário marxistas (os raros de direita são carolas e detestados pela “galera”) é que o favelado é um oprimido, uma vítima de um sistema perverso e covarde que admitiu que seus serviçais domésticos fossem morar perto do trabalho, mesmo que só conseguindo cagar com privacidade no banheiro de empregada da madame. Ensinam a verdade, que o marginal é um filho indesejado (por que a carola pão-dura da patroa não quis pagar o aborto…) da Romilda com o Chico da portaria… Que o estado ausente a décadas vem permitindo a invasão de áreas próximas aos locais de trabalho… Que a coisa começou com a imigração interna, gente que fugia de um interior depauperado por secas e pragas diversas em rumo a uma melhor remuneração na capital… São todos vítimas e coisa e tal… Todo esse ideário acaba sendo uma meia verdade porque não falam que o correto seria uma remoção das favelas em direção a áreas pré-preparadas para seu assentamento… Vai falar de Lacerda (hoje sabemos que o Rio de Janeiro seria inviável sem ele ter removido favelas chaves na ocasião em que foi governador) perto de professor marxista… O problema com essa visão de esquerda é que eles não possuem (na verdade escondem na cabeça as maiores barbaridades ditadoriais e/ou autoritárias para resolver o problema, para quando o dia que estiverem no poder…) não apresentam solução alguma que resolva o problema e através da mais pura das verdades explicativas induzem a uma visão de camaradagem e convívio como fórmula de ir tocando o problema… que, na verdade, “tem” que existir como veremos adiante…

        No arsenal de anestesias sociais cariocas há também as versões de convívio folclórico que é administrada a larga base de funcionários da classe média baixa dos subúrbios e que corre igualmente entre os muquifos de 50 apartamentos por andar que empesteiam a cidade inteira… O carnaval, o favelado sambista pagodeiro e agora também o “funkeiro”, o tal do malandro carioca, imagem essa que até personagem da Disney se transformou… O bandido é o Robin Wood que lhe enfia o “trêsoitão nas fuças” para ter como comprar a fantasia do desfile… Aí pode… As “elites” intelectuais usam e abusam dessa visão romântica e fazem disso almofadas culturais que admitem um convívio impossível na prática.

        Não é possível um convívio pacífico entre alguém que está cagando olfativamente e sonoramente na frente de toda a família em um barraco peçonhento e aqueles que estão a poucas centenas de metros em um apartamento avaliado, as vezes, em milhões de dólares, com um quartinho e banheiro exclusivo para a mãe do cagão citado!

        O que vemos é essas anestesias sociais todas empurrando a violência com a barriga ao custo de gerações inteiras nascerem e se criarem debaixo de uma realidade paranóica, onde ir na esquina representa um perigo de vida estatisticamente 957 vezes maior do que um raio cair na cabeça. Por outro lado, essa coisa toda gera um nivelamento por baixo no quesito comportamental dos habitantes da cidade, o filho do porteiro é o mentor dos pitboys mauricinhos das academias de lutas marciais… Pois…No “calejamento” do embate diário com a violência, os elementos sociais se tornam valentões violentos sem educação ou civilidade…

        Mas você quer ver as elites cariocas pularem de verdade e esquecerem sua demagógica complacência de convívio? Agora, depois que eles “resgataram” das mãos da bandidagem o tal Complexo do Alemão, politicamente e para “inglês ver”, mandaram assistentes sociais e montaram improvisadamente serviços burocráticos da prefeitura e do estado, na tentativa de trazer a “civilização” ao território “invadido”… Um microscópico Plano Marshall, porderiamos caricaturar. Pois bem… Em nenhum momento falaram, ou aventaram a possibilidade de distribuição/regularização dos títulos de propriedade. Só é possível haver uma urbanização de favelas se, antes de mais nada se regularize a questão da propriedade. Uma quantidade não sabida de barracos das favelas cariocas são alugados de grileiros, de gente que invadiu e construiu barracos a muito tempo atrás e mantém a propriedade de boca ou na marra. Dar um título de propriedade, um endereço regular a quem estiver habitando o local é o mesmo que começar a dar dignidade e respeito àquela população para que resistam mais em entregar seus filhos a bandidagem, como foi o que fizeram, ao final da contas e para falar a verdade.

        Se bem conheço meu povo, a grita seria justamente nesse ponto… Se falassem em dar isenção de IPTU até que todos os serviços básicos estivessem a disposição então… a grita ia ser maior ainda. Por que?

        A esquerda seria contra pois estariam resolvendo o problema com propriedade, um conceito não bem digerido. Nunca gostaram da fórmula da Vila Kennedy, onde casas foram dadas aos favelados que foram removidos das favelas da Zona Sul… E… Claro, na cabeça dessa turma o incômodo da pobreza deve se fazer presente para lembrar que o sistema tem que mudar. Basta lembrarmos de um caso clássico que foi a Cruzada São Sebastião… “Já que vocês estão removendo os “coitadinhos” então que removam para sua vizinhança, não para um subúrbio distante para se livrarem do problema… Que se dane a questão da segurança, que sempre surgirá se não houver alguma forma de isolamento entre áreas abastadas e pobres…” Como acham que pobres/miseráveis não deveriam existir (eu concordo, mas a realidade não é essa… com criminalidade não vai haver resgate da pobreza…) o incômodo de sua presença tem que ser suportado pela burguesia. Aqui encontramos os eternos problemas práticos do pensamento tipicamente de esquerda, sempre tão perdidos entre bordões, palavras de ordem e um jargão bolorento. Para muitos esquerdistas a criminalidade faz as vezes da luta-armada contra a opressão capitalista da burguesia. O meu ponto é que esse tipo de luta-armada que imaginam possui o mesmo efeito de bombas terroristas, mata um monte de inocente que não tem nada a ver com o peixe… Um marketing errado e suicida…

        E a direita, bom, aí entra desde cobiça em relação aos terrenos, pensamentos muito parecidos com o dos republicanos americanos que acham que riqueza e pobreza é escolha divina, um mix de mesquinharia e ganância. Enfim, as pessoas que deixaram as favelas se formarem, infelizmente, ainda existem… Sem esquecermos, que, muitos indivíduos de direita são netos de algum Robin Wood que deu certo no passado, em algum ponto o DNA grita e acham que só eles podem roubar e aos outros dizem inconscientemente: Perdeu, perdeu…

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